Cancelar a CazéTV por publicidade de bets, e só ela? É oportunismo em ano eleitoral

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Por Rodrigo Capelo/Estadão

Precisou da Copa do Mundo para políticos descobrirem: a CazéTV faz propaganda de bet! Em ano eleitoral, sem coincidência alguma, alguns deles resolveram subir no palanque para bradar contra as casas de apostas. Por mais que eu tenha uma série de restrições, nunca apostei, nunca fiz publicidade, é difícil se deparar com a situação e não ver certo oportunismo na crítica.

A Cazé fala em bet o tempo todo, coloca odds na tela, promove a aposta turbinada do segundo tempo. É tudo verdade. Mas ela não é a única a levantar essa bandeira. Globo, SBT e N Sports, todas detentoras da transmissão da Copa de 2026, têm anunciantes do segmento de bets. Elas incentivam o consumo desse tipo de entretenimento e se financiam a partir dessas verbas publicitárias.

Uma curiosidade do mercado tem recebido menos atenção dos críticos. As maiores emissoras são, elas mesmas, donas de casas de apostas. A Globo montou uma joint venture com a MGM, um cassino de Las Vegas, para criar a BetMGM. O SBT anunciou a criação do Todos Querem Jogar, uma bet que teria outros produtos de entretenimento clássicos do canal, como o Show do Milhão.

Departamento de Proteção ao Consumidor cita casos em que transmissão de jogos da Copa é usada para estimular apostas.

As apostas não são exclusividade da CazéTV, nem são novidade no futebol. Este é o único segmento que tem elevado os investimentos em publicidade nas emissoras, nos clubes de futebol e nos influenciadores, no retrato dos últimos cinco anos. Contratos começaram em algumas dezenas de milhões de reais, hoje são centenas de milhões para cada player, inclusive, o time que você torce.

Outros países têm restrições à publicidade das bets. A China proíbe tudo. A Inglaterra tirou essas empresas das camisas dos clubes de futebol. Nós, não. As apostas de cota fixa foram liberadas em 2018, a regulamentação do setor levou anos até sair, só em 2023, e nesse processo foi feita a opção de liberar a publicidade. O máximo que se tem é o ineficaz “jogue com responsabilidade”.

Queremos moderar as propagandas dessas empresas? Sou entusiasta. Mas precisamos falar sério. A proibição da atividade como um todo é uma utopia: os consumidores existem e, se não for em casas fiscalizadas, eles vão jogar no mercado ilegal, em sites hospedados na cochinchina. A “Lei Seca” não funciona.

Já a limitação da publicidade é um caminho a explorar. Se todo mundo estiver ciente de que contratos serão reduzidos, e portanto haverá lobby na direção contrária em Brasília e onde mais se faz a política real, por mim está tudo certo. Subir em palanque durante a Copa para bater no Cazé, e só no Cazé? Não dá.