Câncer de mama: por trás do rosa, existem doenças diferentes

Mulher de cabelo escuro, vestindo camiseta rosa com um laço rosa na altura do peito, faz autoexame das mamas com as mãos

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Entre todas as campanhas identificadas por cores para chamar a atenção sobre o câncer, nenhuma alcançou a dimensão do Outubro Rosa. O laço rosa está em todos os lugares. Nenhum outro tipo de câncer ganhou tanta visibilidade e espaço no debate público quanto o câncer de mama. Mas ser o mais falado não significa que já dissemos o suficiente.

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), realizado em setembro de 2026, a partir dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC), analisou quase 118 mil registros de câncer de mama entre 2020 e 2023. Por se tratar de um registro hospitalar, os dados não representam a incidência do tumor na população brasileira, mas permitem analisar características dos casos atendidos nas instituições.

Entre as mulheres com 50 anos ou mais, 28,1% estavam nos estádios 0 ou I. Entre aquelas de 40 a 49 anos, eram 23,4%. Nas mulheres de até 39 anos, a proporção caiu para 14,4%.

Portanto, mesmo na faixa etária com o maior percentual, mais de sete em cada dez registros estavam nos estádios II, III ou IV.

O estadiamento indica a extensão do câncer: o estádio 0 é restrito ao local de origem; o I é invasivo, mas inicial; o II reúne diferentes situações, ainda podendo ser considerado inicial; o III apresenta maior extensão na mama ou nos linfonodos, sem metástases; e o IV corresponde à doença metastática.

Entre os estádios III e IV, a proporção também foi maior entre mulheres de até 39 anos (49,5%), em comparação com aquelas de 40 a 49 anos (40,8%) e com 50 anos ou mais (37,1%).

Por isso, não interpretamos todos os casos nos estádios II, III e IV como doença avançada. Mas a pequena proporção de registros nos estádios 0 e I, inclusive entre mulheres em idade de rastreamento mamográfico, reforça que ainda existem desafios importantes.

A diferença por idade também chama atenção. Entre as mulheres de até 39 anos, apenas 1.792 dos 12.423 casos estavam nos estádios 0 ou I. Como muitas ainda não chegaram aos 40 anos, quando a mamografia é recomendada para mulheres de risco habitual, é importante conhecer as próprias mamas e investigar alterações.

Já mulheres com risco aumentado, como aquelas com alterações hereditárias em genes como o BRCA, precisam de acompanhamento individualizado.

Mas o diagnóstico precoce é apenas uma parte do que precisamos discutir. O Outubro Rosa nos acostumou a representar o câncer de mama com uma única cor. A biologia, porém, revela diferentes tons: quando dizemos “câncer de mama”, usamos um único nome para doenças com características bastante diferentes.

A biópsia identifica características do tumor que ajudam a definir o tratamento, como a presença de receptores hormonais e da proteína HER2. Tumores com receptores hormonais podem responder a terapias hormonais, enquanto aqueles com HER2 podem se beneficiar de tratamentos direcionados. Já os tumores triplo-negativos não apresentam esses marcadores e exigem outras estratégias de tratamento.

Essas diferenças ajudam a definir os medicamentos e a ordem do tratamento. Nem toda mulher deve começar pela cirurgia. Em algumas situações, medicamentos são utilizados antes para reduzir o tumor e avaliar sua resposta. Em outras, operar primeiro é a estratégia mais adequada.

A cirurgia também mudou. Quando existe segurança oncológica, é possível preservar a mama em muitas pacientes e ser mais seletivo na abordagem dos linfonodos da axila, evitando procedimentos mais extensos quando não acrescentam benefício.

Quando a mastectomia é necessária, diferentes possibilidades de reconstrução podem ser consideradas.

Individualizar é adaptar o tratamento à mulher e às características do tumor. A paciente não precisa decorar expressões como luminal A, luminal B, HER2-positivo ou triplo-negativo. Precisa compreender qual é seu tipo de câncer, em que estágio foi diagnosticado e por qual motivo determinado tratamento está sendo proposto.

É por isso que vejo espaço para o Outubro Rosa ampliar sua mensagem. Precisamos continuar falando sobre rastreamento e diagnóstico, mas também sobre as diferenças entre os tumores e como elas interferem no tratamento.

A campanha fez com que milhões de pessoas reconhecessem uma cor, um laço e uma causa. O próximo passo é transformar essa visibilidade em diagnóstico oportuno, conhecimento e decisões mais individualizadas. Porque o rosa é um só. O câncer de mama, não.