Capital político e gestão: o que esperar dos próximos quatro anos de Raquel Lyra

Reeleita no dia 4 de outubro para comandar o Palácio do Campo das Princesas, Raquel Lyra (PSD) inicia a preparação para o seu segundo mandato em um cenário político diferente do encontrado em 2023, quando assumiu pela primeira vez o Governo de Pernambuco. Após a vitória sobre seu principal adversário, o ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), logo no primeiro turno, a chefe do Executivo estadual tem diante de si um novo desafio: transformar a aprovação popular e o capital político conquistados nas urnas em entregas concretas, além de gerir novas dinâmicas com a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) e municípios do estado.

Em seu primeiro mandato, Lyra intensificou entregas e serviços públicos. A dinâmica, no entanto, segundo a análise do cientista político Hely Ferreira, veio expressivamente na reta final do mandato e teve forte apelo eleitoral para garantir a reeleição. “Foi um prazo muito tardio. Coisas que poderiam ter sido entregues há mais tempo”, ressalta Ferreira em entrevista ao Diario de Pernambuco.

O primeiro quadriênio da gestão Raquel Lyra também foi marcado por uma relação complexa com o Poder Legislativo, com barreiras e atritos na tramitação de projetos na Alepe. Na análise de Hely Ferreira, para o segundo mandato, a expectativa é de uma relação institucional mais fluida com a Casa de Joaquim Nabuco.

Com a nova conjuntura da Alepe, em que o PSD, partido da governadora, aparece com o maior quantitativo de representantes, a base governista ganha fôlego e possibilidade de maior estabilidade. Para esta nova fase, o cientista político projeta um ambiente menos conturbado, contudo sem uma submissão acrítica.

“Creio eu que ela vai buscar um maior diálogo com a Casa Legislativa. Não acredito que tenha uma Assembleia que deva dizer amém, um Poder Legislativo de cabeça baixa, mas o Poder Legislativo que possa ter uma boa relação. Creio que vai haver uma maior harmonia, mas a harmonia não significa concordância com tudo”, pondera Hely.

No plano narrativo, potencializado durante a campanha para reeleição, o uso constante de críticas à herança administrativa deixada pela gestão do ex-governador Paulo Câmara (PSB) perde força para os próximos quatro anos, conforme análise do especialista. “O eleitor vai enxergar que deu oportunidade e ela teve tempo suficiente para corrigir. Então, essa estratégia de ainda atribuir algumas questões ao PSB, nesse segundo mandato, não vai ter liga. Se as pessoas depositaram o segundo mandato nela, é porque acreditam que ela tem capacidade administrativa de fazer o que ela diz que tem que ser feito.”

De olho nas promessas

O plano de governo para o novo quadriênio traz metas como expansão do efetivo de segurança, construção de creches e investimentos robustos em infraestrutura. Para Ferreira, o principal teste de credibilidade residirá na conclusão de compromissos pendentes do primeiro mandato, especialmente no tocante à meta de entregas de creches à população.

Ao todo, a governadora prometeu 250 instituições, sendo 100 entregues até o final de 2026. Até o momento, 21 creches foram entregues nos municípios de Águas Belas, Arcoverde, Buíque, Camaragibe, Caruaru, Ibirajuba, Igarassu (2 unidades), Ilha de Itamaracá, Itapissuma, Jaboatão dos Guararapes, Palmares, Paranatama, Pombos, Sairé, Serra Talhada (2 unidades), Tupanatinga e Tuparetama.

“Às vezes é melhor o candidato não prometer coisas novas e cumprir as obras que começou e não terminou. Então, a primeira coisa que a gestão tem que fazer é concluir o que prometeu no primeiro mandato e não terminou e, em seguida, ir para a agenda do segundo mandato”, alerta Ferreira.

Secretariado e espaço para aliados 

Ao Diario, Hely Ferreira comenta que a composição do secretariado na primeira gestão Raquel/Priscila foi marcada por um forte perfil técnico, o que acabou gerando distanciamentos e o rompimento político com lideranças que haviam apoiado a campanha. Com o início do novo mandato, o questionamento sobre mudanças e a acomodação de nomes de aliados, como Daniel Coelho (PSD), Túlio Gadelha (PSD) e Eduardo da Fonte (PP), aquece as costuras da composição do primeiro escalão do governo estadual.

Entretanto, o especialista pondera que a montagem da equipe de governo envolve inevitavelmente acordos firmados durante o processo eleitoral. Para ele, a dinâmica de acomodação de lideranças sem mandato exige um cuidadoso malabarismo político para equilibrar compromissos de palanque e eficiência administrativa.

“Eu espero que o secretariado seja montado no critério da competência. Não apenas no político ou porque (a pessoa) perdeu o mandato e agora precisa de um local para fazer alguma coisa. Acho que o critério seja o da competência”, reforça.

O papel de Priscila Krause 

Priscila Krause também carrega o peso da continuidade e renovação da parceria com Raquel no Palácio do Campo das Princesas. Nos bastidores das articulações políticas, Priscila aparece como uma possível candidata à prefeitura da capital pernambucana. Apresentada pela própria governadora como “filha do Recife”, Priscila, caso surja internamente como prefeiturável, deve ganhar maior protagonismo neste segundo mandato.

Nesse contexto, Ferreira menciona que, por ser o principal reduto eleitoral histórico de Priscila, a cidade do Recife surge como um cenário natural para o seu próximo passo político. No entanto, ele observa que o cenário também conta com nomes competitivos, como a deputada estadual reeleita Dani Portela (PT), o atual prefeito da cidade, Victor Marques (PCdoB); e a senadora recém-eleita, Marília Arraes (PDT).

Futura presidenciável

A vitória expressiva de Raquel Lyra no primeiro turno projetou seu nome nacionalmente e a governadora já é apontada como futura presidenciável. Entre consolidar o governo estadual e voos mais altos para 2030, Hely Ferreira destaca a postura pragmática da gestora estadual.

“Todo político que almeja crescer, talvez o sonho dele seja chegar à presidência da República. Mas como ela é muito pragmática na política, se ela tem essas pretensões, ela só vai fazer isso, deixar isso claro, no ano que for da eleição presidencial; e ela só vai disputar se sentir que tem a chance de vitória”.