Solidão e Carnaíba são consideradas duas das dez cidades pernambucanas com os melhores índices de alfabetização

Por Mirella Araújo/JC

Em Pernambuco, a realidade da alfabetização é preocupante e revela disparidades significativas entre as regiões do estado. Apesar de uma tendência de avanço, com 59% dos estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental sabendo ler e escrever em 2023 e 60,79% em 2024, o índice ainda está abaixo da meta de 62,4%.

Dos 184 municípios avaliados, 51 não alcançaram a meta estabelecida para 2024 e, além disso, apresentaram resultados piores que os de 2023, que já eram considerados baixos. O retrato dessa desigualdade no acesso à aprendizagem na fase inicial da vida escolar se evidencia quando se observa o desempenho de uma cidade do porte do Recife.

A capital não apenas ficou abaixo da meta do Indicador Criança Alfabetizada, alcançando 54%, frente aos 65,29% previstos para 2024, como também apresentou uma queda significativa em relação ao ano anterior, quando o índice foi de 62,4%.

Esse percentual representa a proporção de crianças de 7 anos capazes de escrever bilhetes e convites simples, ler textos do cotidiano, histórias em quadrinhos, além de reconhecer sílabas e relacionar sons e letras da Língua Portuguesa.

“Existia uma expectativa de que Recife melhorasse, até em função dos resultados anteriores. Mas o que me chamou a atenção foi o fato de que o desempenho de Recife é praticamente igual ao de Manari, que já teve o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Manari teve 52% das crianças alfabetizadas, com um PIB per capita de R$ 5 mil, enquanto Recife, com um PIB per capita de R$ 33 mil, alcançou apenas 54% das crianças alfabetizadas no 2º ano do Ensino Fundamental”, afirmou Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE, nesta terça-feira (22).

Ao analisar os dados da Região Metropolitana do Recife, o professor destaca que o cenário da alfabetização é desastroso. “Quando olhamos para Ipojuca, com um PIB per capita de R$ 135 mil, vemos que o município ainda está em um patamar muito baixo de alfabetização. Depois observamos o Cabo de Santo Agostinho, Abreu e Lima, Camaragibe, Jaboatão dos Guararapes. A Região Metropolitana requer um olhar atento e preocupado em relação à alfabetização, porque ela é o alicerce de todo o processo educacional”, completou Ramos.

No ranking da RMR, Itapissuma lidera a região, com 82,95% de crianças alfabetizadas, superando os 78,03% projetados. Igarassu também ultrapassou a meta estipulada (66,97%, ante 65,47%). Já Ipojuca (64,15%, frente aos 70,24%) e Olinda (62,29%, diante de 62,95%) ficaram abaixo do previsto.

Na sequência, os índices seguem se distanciando das metas previstas pelo MEC: Camaragibe teve 57,57% de crianças alfabetizadas, frente a 62,2%; Paulista, 55,54% (55,98%); Jaboatão dos Guararapes, 54,98% (61,03%); Recife, 54,36% (65,29%); Araçoiaba, 53,49% (51,26%); São Lourenço da Mata, 53,32% (49,84%).

Seguindo o ranking, estão Cabo de Santo Agostinho com 50,72% (59,25%), Itamaracá com 50,60% (57,61%), Abreu e Lima com 46,40% (52,75%) e Moreno, com apenas 43,93% de crianças alfabetizadas, atrás dos 57,79% esperados.

Mais colaboração e recursos para alfabetização nos municípios

A presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação de Pernambuco (Undime/PE), Andreika Asseker Amarante, reforça que a alfabetização não é um processo simples. No caso dos municípios que enfrentam situações de vulnerabilidade socioeconômica, a participação integrada das esferas federal e estadual podem contribuir para a reversão dos cenários alarmantes da Educação.

O município também desenvolve um trabalho sistemático de monitoramento pedagógico, voltado à melhoria das práticas escolares e do planejamento nas unidades de ensino. Além disso, foram feitos investimentos estruturais nas salas de aula e no acolhimento dos professores, promovendo melhores condições para o processo de ensino e aprendizagem.