Com o cancelamento do São João do Recife Quadrilhas Juninas ficam endividadas

Por Emannuel Bento/JC

Representantes e lideranças de quadrilhas juninas do Recife estão preocupados com a suspensão do Ciclo Junino que ocorreria em junho, conforme anunciou o prefeito João Campos na última segunda-feira (30). O chefe do Executivo da capital comentou, no mesmo dia, numa entrevista a um canal de televisão, que o Ciclo será realização no segundo semestre.

Em nota, João Campos disse que “em um momento mais oportuno, irá debater com toda a cadeia cultural produtiva do ciclo junino caminhos para assegurar a salvaguarda das manifestações e brinquedos populares, além do fomento à renda de todos os profissionais envolvidos no ciclo”.

“Por ora, estão sendo estudadas alternativas de calendário para programações e concursos de quadrilhas, incluindo caminhos para a retomada dos pagamentos das subvenções às agremiações, que já haviam sido iniciados”, continua a nota.

Entrevistados pelo JC afirmam que a decisão foi tomada sem diálogo com o Conselho Municipal de Cultura ou com a Comissão Especial da Câmara do Recife para o Carnaval e São João. Agora, eles se perguntam como irão pagar os custos já investidos nas apresentações — considerando que a verba proveniente de polos e editais é que iria suprir.

De acordo com as fontes ouvidas, quadrilhas maiores como Alumiar, Dona Matuta, Tradição, Origem Nordestina e Evolução gastam, em média, R$ 130 mil em investimentos para apresentações. Esse dinheiro começa sendo pago pelos membros e depois é acrescentado por cachês de polos dos municípios, premiações de concursos e pela subvenção da Prefeitura do Recife.

Além do Recife, pelo menos quatro municípios de Pernambuco já cancelaram ou suspenderam os festejos juninos com o intuito de direcionar os recursos que seriam utilizados no São João para as vítimas das chuvas no Estado. São eles: Paulista (e a festa Vamos Paulistar), Araçoiaba, Vicência e Paudalho — desses, o único que tem quadrilhas juninas é Paudalho.

Frustração

“O movimento já está enfraquecido porque foram dois anos sem ter a festa. As quadrilhas investiram pesado para voltar. Nos reunimos em fevereiro para pensar como seria esse retorno”, diz Roberto Carlos Gomes, responsável pela Gama Produções, que produz mais de 52 quadrilhas em Pernambuco — sendo 22 no Recife.

“Após a pandemia, muitos componentes sequer queriam dançar mais. Então tivemos um grande problema para recuperar. Quando a Prefeitura do Recife abriu um concurso, incentivou as pessoas. Nós só íamos fazer algumas mostras, espetáculos pequenos, mas a própria Prefeitura anunciou o concurso para competir”, continua.

Os editais de subvenção junina para as quadrilhas e atrações artísticas para o São João de 2022 foram publicados no Diário Oficial em abril e já tiveram os seus resultados divulgados.

“Alguns grupos já receberam a subvenção, outros não. As adultas recebem R$ 16,6 mil e as infantojuvenis, em torno de R$ 12 mil. De toda forma, muito investimento já foi feito e já está tudo adiantado”, diz o produtor cultural.

Roberto Carlos Gomes diz que, nos bastidores das quadrilhas, não existe tanta esperança de que a programação seja retomada ainda neste ano, já que o investimento de R$ 15 milhões foi destinado às ações que vão ajudar às vítimas, de acordo com a gestão municipal.

“Se não tem recurso, não tem como fazer. O Carnaval também foi ‘suspenso’ em 2022 e até hoje não ocorreu. Ainda temos que lembrar que teremos eleições, o que inviabiliza festas nas ruas”, destaca.

“A cidade do Recife já teve muitas tragédias como esta, mas nunca deixamos de ter a festa. Não é que vamos normalizar as mortes, mas isso só vai piorar a situação de quem investiu: quadrilhas, bandas, artistas em geral. É uma falta de compromisso, pois aumenta ainda mais a vulnerabilidade dos artistas que foram afetados pela tragédia”.

Custo

Fábio Andrade é diretor da quadrilha Lumiar, uma das que mais investe no período junino, e diz que o grupo recebeu a suspensão com perplexidade. “Temos consciência do que aconteceu na cidade, temos esse problema há décadas, pois o inverno é intenso. Mas entra gestão, sai gestão, e as coisas são empurradas com a barriga.”

Ele explica que um grupo como a Alumiar costuma gastar com tecidos, costureira, serralheiro, cachês de músicos que vão para o estúdio e transporte. “Estamos todos com as mãos na cabeça”, resume o produtor.

“Fizemos um São João de menor proporção pelo tempo que ele foi liberado. Chegamos a gastar R$ 150 mil, no mínimo. O valor é dividido entre os membros, sendo que muitos usaram cartões de crédito. Até o momento, quando não confirmam a realização, alguns de nós estamos endividados”, diz.

“Nos preparamos para fazer os polos, pois as atividades geradas em paralelo, como eventos particulares, são poucas. O que nos sustenta são as atividades criadas pela Prefeitura, nos polos que dançamos e com o edital das subvenções”, reforça.