Com pouco a oferecer ao futuro do país, Lula abre campanha olhando para o passado

Lula, sorrindo e acenando com a mão direita, veste camisa branca e chapéu de palha, em um palco. Ao fundo, uma multidão de pessoas, muitas vestindo vermelho, e algumas bandeiras do Brasil. Mãos de pessoas na frente seguram celulares para filmar.

Por Robson Bonin/VEJA

No fim, lembramos do começo. Essa espécie de liturgia da vida humana parece ser a lógica que guia a campanha do presidente Lula nesta busca por um quarto mandato no Palácio do Planalto.

Caminhando para concluir um terceiro governo em que reciclou programas e velhos vícios no Planalto, o petista deixará ao próximo mandatário uma crise fiscal histórica, Lula colocou sua campanha na rua resgatando o tempo de luta sindical que deu origem ao PT.

Naqueles idos românticos dos anos oitenta, Lula era um peão de fábrica que buscava unir a classe trabalhadora para superar as desigualdades de uma sociedade corrompida. A virtude estava com o petismo. Tudo de errado estava em quem não pensava como o petismo. Eram as elites. A gênese do “nós contra eles”.

“Vocês colocaram na Presidência uma peão quase um analfabeto. Eu só tenho o primário e um curso do Senai. Mas eu conheço o coração e a mente de vocês”, disse Lula aos apoiadores que foram até o estádio fechado onde ocorreu o evento do PT.

Quase duas décadas de poder no Planalto separam o personagem sindical que Lula buscou encarnar no domingo, no ABC Paulista, do presidente em busca do quarto mandato.

Nesse período, Lula deixou de ser o peão de fábrica para virar um político milionário na aba das empreiteiras que pagaram milhões por palestras do petista enquanto lucravam no escândalo do petrolão.

O petismo, antes formado por líderes comunitários e da igreja, virou uma sigla de elite, com quase nenhum traço dos pensamentos de origem e com muitos “consultores” que ficaram milionários fazendo negócios nos bastidores dos governos do partido.

Lula se aliou a todos os “partidos burgueses” assim que chegou ao poder. O mensalão inaugurou essa aliança.

Com uma obra social inquestionável, os governos petistas mudaram, de fato, a vida de milhões de brasileiros das classes baixas, mas foram responsáveis por moldar este país ainda profundamente desigual e corrompido pela roubalheira estatal.

Ao lançar sua campanha, Lula olhou para o passado porque sabe que futuro é desafiador. O PT passou quase vinte anos no poder e entregará ao próximo presidente um legado de caos fiscal, inflação e de promessas não cumpridas, estatais quebradas e um abismo provocado pelas bets nas vidas de milhões de famílias.

A recessão, o endividamento e o avanço de investigações de corrupção no país assombram Lula e muitos de seus aliados. Talvez por isso ele não tenha falado no assunto ao se oferecer para um novo mandato no Planalto.

Ao discursar por quase quarenta minutos, o petista falou de passado, buscando a gratidão de quem vota, um crédito passado, e o sonho? Esse ficará para outro tempo.

Incapaz de prometer novos tempos ao país, já são quase 300 bilhões de reais gastos em medidas eleitoreiras que vão custar muito mais ao futuro da Nação, Lula focou em tentar mostrar o que fez em sua história, o lado bom da experiência petista no governo, e se apresentou como alguém que terá, no Planalto, o papel de garantir que tudo siga como está no país.

A continuidade, aliás, é o que o petista tem de mais atraente a oferecer ao eleitorado que rejeita o retorno da família de Jair Bolsonaro ao Planalto.

Parece pouco para quem tenta buscar a confiança de um eleitor que se sente enganado por ter acreditado no discurso de 2022.

O governo de frente ampla, de pacificação e de um mandato só, prometido na campanha, era pura ficção. Lula fez um governo com alma petista. Boa parte dos problemas que atrasam o futuro do país estão ligados a isso.