
Estadão
Um ícone da era de ouro da navegação fluvial brasileira está de volta às águas. Depois de 12 anos à espera de um destino, o Vapor Benjamin Guimarães foi restaurado e apresentado neste mês à população de Pirapora, no norte de Minas Gerais. Por ora, ele está pronto, mas à espera de intervenções no rio São Francisco para que seja liberado para passeios turísticos – o que deve ocorrer até o final do ano.
A embarcação foi construída em 1913 pelo estaleiro James Rees & Sons, nos Estados Unidos, e trazida ao Brasil em 1914 para transportar cargas e passageiros na Amazônia, no auge do 1.º Ciclo da Borracha.
Em 1930, foi transferida para o rio São Francisco, operando o trecho entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA). Atualmente, na América Latina, é o único barco a vapor em atividade que ainda utiliza seu sistema original de propulsão: caldeira a lenha e roda de popa. Por essa razão, sua reinauguração foi bastante festejada.
No Brasil, o apogeu desse meio de transporte foi entre 1850 e 1930. Na Amazônia e no Tocantins, os vapores atendiam ao comércio da borracha, da madeira e de produtos extrativistas, em áreas sem estradas, impulsionando o comércio, a circulação de pessoas e o desenvolvimento econômico de regiões até então isoladas.
No rio São Francisco, eram essenciais para conectar o norte de Minas e o sertão nordestino ao litoral. A partir dos anos 1930-1950, os vapores foram gradualmente substituídos por barcos a motor diesel, por trens e por rodovias. Ainda assim, o Benjamin Guimarães serviu ao Exército brasileiro no deslocamento de tropas encarregadas da vigilância do litoral nordestino, durante a Segunda Guerra Mundial.
“Em um tempo em que não havia estradas, essa embarcação foi o elo entre as regiões. Não à toa o Rio São Francisco é conhecido como o Rio da Integração Nacional”, disse o capitão de Corveta (T) da Marinha Addison Tavares Couto, delegado Fluvial de Pirapora.
Ataque de Lampião
O barco é cercado de histórias, lendas e curiosidades. Como o dia em que teria sido atacado pelo bando de Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o Lampião. Conta-se que os cangaceiros planejavam saquear a carga do vapor e chegaram a disparar contra o barco. No entanto, o comandante conseguiu manobrar para a margem oposta do rio, fora do alcance dos tiros.
O vapor interrompeu suas operações em 2013 devido a problemas estruturais e entraves administrativos. Em novembro de 2020, foi retirado das águas para restauração, um processo que só teve início efetivo em setembro de 2024.
O processo de restauro envolveu a Empresa de Turismo de Pirapora (Emutur), o estaleiro Indústria Naval Catarinense (INC), a Marinha e empresas certificadoras. Os recursos para a obra, R$ 5,3 milhões, foram viabilizados por meio de um projeto incluído no Novo PAC, dentro do Programa de Revitalização dos Recursos Hídricos das Bacias dos Rios São Francisco e Parnaíba.
Com as obras iniciadas em novembro de 2024, o vapor foi reinaugurado no último dia 1º de junho, aniversário de 113 anos de Pirapora. Quase um mês antes, dia 3 de maio, um grande público se concentrou na mureta do cais de Pirapora para assistir à complexa operação executada pela empresa Indústria Naval Catarinense (INC), que levou a embarcação histórica do Porto de Pirapora para o trecho do “Velho Chico”.
A INC e a Administração municipal tiveram que solicitar à Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) liberação de mais água pela Usina Hidrelétrica de Três Marias, garantindo as condições necessárias para recolocar, com segurança, o Benjamin de volta ao leito do rio. Tombado desde 1985 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA-MG), tem capacidade para 140 passageiros; 43,85 metros de comprimento; 7,96 de largura e peso descarregado de 243 toneladas, com acréscimo de 66 toneladas quando carregado.
Volta dos passeios
Embora tenha sido oficialmente reinaugurado, o vapor ainda não pode navegar e nem transportar pessoas, pois depende de algumas intervenções no Velho Chico e também de uma vistoria da Marinha. Atualmente, a Empresa de Turismo de Pirapora (Emutur) é a responsável pela embarcação. O presidente da Emutur, Elton Jackson Gomes da Mota, disse que será preciso refazer a sinalização do rio e a dragagem dos canais de navegação. Como o nível de água atualmente está abaixo do ideal, o vapor só pode navegar pelos canais, que também precisam de reparos.
“A nossa estimativa, como responsáveis pelo vapor, é que os passeios turísticos voltem a ser realizados a partir de novembro. Isso porque, com o início do período chuvoso, o nível do rio deve subir, facilitando a navegação”, afirmou.
O roteiro do passeio começará com uma descida pelo São Francisco, na qual o vapor percorre o rio por cerca de uma hora a uma hora e dez minutos. “Já na volta, a subida é mais lenta, leva entre uma hora e meia e até duas horas, dependendo da força da correnteza”, diz o presidente da Emutur.



