
Há pouco mais de dois meses, no dia 7 de fevereiro, quando a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) mostrava que tinha potencial para pôr em xeque sua reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diante de vários caciques do partido, na festa de aniversário do PT, em Salvador, discursou em alto e bom som. “Nós não estamos com essa bola toda em todos os estados. Precisamos compor e decidir se a gente quer ganhar ou perder”, disse, antes de pedir ao presidente da sigla, Edinho Silva, que fizesse “as alianças necessárias para a gente ganhar as eleições”. A preocupação fazia sentido porque, com o aval do pai, Jair Bolsonaro, o filho Zero Um começou a articular a formação de chapas pelo país, o que foi facilitado pelos bons números obtidos nas pesquisas. A corrida por apoios, acelerada nos últimos dias, parte de uma necessidade: em um sistema político fragmentado como o brasileiro, a construção de palanques amplos pode ser o fator de desequilíbrio na disputa, que promete ser tão acirrada quanto a de 2022.
Lula, em momento difícil nas pesquisas eleitorais, move-se claramente pelo pragmatismo. O PT já tem articulações fechadas ou em estágios avançados em 22 dos 27 estados, com alianças que variam entre as históricas, como PSB e PDT, até as improváveis: União Brasil (reeleição de Clécio Luís ao governo do Amapá) e PP (Lucas Ribeiro, na Paraíba). Também tem acordos com o PSD no Amazonas (Omar Aziz) e no Rio de Janeiro (Eduardo Paes) e pode fechar o apoio a Fábio Mitidieri no Sergipe, embora o PT esteja dividido no estado. Também já tem alianças com o MDB no Pará (Hana Ghassan) e em Alagoas (Renan Filho).
Em alguns lugares, Lula deve se equilibrar entre dois palanques. É o caso de Pernambuco, onde fará aliança formal com João Campos (PSB) sem fechar as portas para a governadora Raquel Lyra (PSD), que se aproximou do presidente. Na Paraíba, apesar do apoio a Lucas Ribeiro (PP), Lula tem boas relações com o rival dele, Cícero Lucena, do MDB paraibano, que é alinhado ao petista. “É um equilíbrio complicado, mas não vai ser a primeira vez que lidaremos com isso, especialmente no Nordeste, onde a maioria quer ser o candidato do Lula”, diz o deputado Jilmar Tatto (PT-SP), membro do Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE), que capitaneia as articulações do PT nos estados e tem como objetivo número 1 a reeleição do presidente.
Com essa prioridade em mente, o PT já aceitou que terá um protagonismo menor. Neste ano lançará apenas dez candidatos próprios aos governos estaduais, o menor número das últimas quatro eleições. Esse pragmatismo foi ilustrado na decisão da executiva nacional do partido em apoiar Juliana Brizola (PDT), neta do ex-governador Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul, sob resistência do diretório estadual, que preferia lançar Edegar Pretto (PT), mas recuou ante a ameaça de intervenção, será a primeira vez que o partido não terá candidatura própria no estado. “O PT continua sendo a principal legenda da esquerda, mas isso mostra que ele está mais disposto a fazer escolhas políticas e alianças”, avalia Fábio Andrade, cientista político e professor da ESPM.
A boa largada de Flávio injetou mais pragmatismo no PT, porque a direita passou a se movimentar de forma mais incisiva. O PL já bateu o martelo sobre ter candidatos próprios ao governo de ao menos doze estados, mesma quantidade da eleição de 2022. O bastião mais organizado é a Região Sul, onde o PL lidera chapas fortes nos três estados, Luciano Zucco (RS), Sergio Moro (PR) e Jorginho Mello (SC). Flávio, que foi decisivo para filiar o favorito Moro ao PL no Paraná, esteve no Rio Grande do Sul no último dia 11 para sacramentar a aliança que reuniu PL, PP e Novo na chapa a governo e Senado. A frente gaúcha atraiu ainda Republicanos e Podemos. “Assistimos com entusiasmo a essa união da direita no Rio Grande do Sul, nos organizamos e nos incentivamos”, celebra o deputado Ubiratan Sanderson (PL), candidato ao Senado.
Os dois campos políticos favoritos na eleição nacional avançaram bastante nos estados, mas ainda têm muitas dificuldades. O PT pode ter que usar a mão pesada da direção nacional para resolver resistências do petismo em locais como Maranhão, Sergipe e Goiás. Já o PL tropeça para se estabelecer no Nordeste, região que considera prioritária para derrotar a esquerda. Nos três maiores colégios eleitorais da região, Bahia, Ceará e Pernambuco, o partido não tem um aliado claro. Na Bahia, o PL estará na chapa de ACM Neto com um candidato ao Senado (João Roma), mas não tem garantia de que o ex-prefeito de Salvador vá abraçar a candidatura de Flávio, pelo contrário, na última semana ele acenou ao amigo Ronaldo Caiado (PSD). Em Pernambuco, também é improvável que Raquel Lyra manifeste apoio ao Zero Um, até porque é do PSD de Caiado. No Ceará, a legenda tinha dificuldade para fechar aliança com Ciro Gomes (PSDB), depois de veto da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Esse cenário complicou-se ainda mais com a perspectiva de que Ciro seja candidato à Presidência, conforme o desejo de Aécio Neves, um dos caciques tucanos. Um problema adicional para o PL é que parte do bolsonarismo ainda exige “pureza ideológica” de seus aliados, além do apoio incondicional às prioridades do clã Bolsonaro. “A rigidez doutrinária limita a expansão eleitoral”, aponta o cientista político Murilo Medeiros, da UnB.
Nos grandes colégios eleitorais, o maior problema está em Minas Gerais, onde nem um lado nem o outro tem palanques certos. Lula aposta todas suas fichas no senador Rodrigo Pacheco, que até se filiou ao PSB, mas ainda não confirmou se será candidato. Sem ele, a esquerda é um deserto no estado. Já o PL está no meio de uma encruzilhada. O caminho mais fácil seria apoiar o governador Mateus Simões (PSD), só que nas pesquisas ele não chega a dois dígitos. Outra opção seria fechar aliança com o atual favorito, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Ocorre que ele não é considerado confiável pelo bolsonarismo. Por fim, há a hipótese de apostar no ex-presidente da Federação das Indústrias do estado (Fiemg) Flávio Roscoe, recém-filiado ao PL, mas ele não tem nenhuma experiência eleitoral.
No mais populoso estado do país, São Paulo, a direita leva alguma vantagem. O PL não só fechou apoio à reeleição do favorito Tarcísio de Freitas (Republicanos), como alçou o governador a coordenador da campanha de Flávio em São Paulo, o que garante o andamento conjunto dos dois palanques. Há ainda dificuldade para fechar a última vaga ao Senado, a outra é de Guilherme Derrite (PP). Lula não economizou para tentar vencer a direita no estado: mobilizou três ex-ministros graúdos, Fernando Haddad (PT) ao governo e Simone Tebet (MDB) e Marina Silva (Rede) ao Senado. Além disso, Geraldo Alckmin (PSB), novamente candidato a vice-presidente, será uma espécie de ponta de lança da chapa no estado que já governou por quatro mandatos.
A corrida pelos palanques tem tudo para se acelerar nos próximos dias, porque em julho começam as convenções partidárias que vão sacramentar os acordos feitos nos estados. Atrair fortes aliados nos estados é fundamental para a campanha presidencial porque, além de propiciar estrutura e capilaridade maiores à campanha nacional, pode reforçar a aproximação nacional com legendas relevantes, como os partidos de centro, e garantir tempos maiores de TV e rádio, ainda um trunfo de peso nas eleições brasileiras. A última pesquisa Genial/Quaest mostra que todo o cuidado é pouco nessa engenharia delicada, porque a disputa será equilibrada e qualquer deslize, principalmente em colégios eleitorais importantes, pode definir a eleição.





