Crise faz corrupção subir nas pesquisas e deixa eleição mais imprevisível

Estátua da Justiça sentada, em primeiro plano, com o prédio do Supremo Tribunal Federal iluminado em tons de azul, rosa e amarelo ao fundo, à noite. Um carro escuro está estacionado à direita do prédio. O chão está molhado, refletindo as luzes coloridas

Por José Casado/VEJA

Nunca governo e oposição se viram tão enrolados às vésperas de uma eleição presidencial. E com o auxílio luxuoso do Supremo Tribunal Federal.

Os eleitores voltaram a indicar a corrupção como um dos três maiores problemas nacionais, acima até do aumento do custo de vida e perda de renda familiar, das dificuldades de acesso à saúde e educação e da crítica permanente à escassa atenção governamental aos problemas sociais.

É a visão predominante em pesquisas, consequência da crise institucional que arrasta o Supremo, o governo e o Congresso.

Houve um significativo aumento na percepção sobre corrupção nos últimos 40 dias, mostra a sondagem da Quaest divulgada na última segunda-feira (07). Era um problema listado em quarto ou quinto lugar entre as prioridades dos eleitores.

Nas regiões mais populosas, onde vivem 132,6 milhões de eleitores (83,5% do total), corrupção agora se destaca no segundo lugar da lista de questões urgentes.

A violência urbana segue no topo da listagem das aflições, em todo o país, mas há sinais de que na região Sul (22,8 milhões de eleitores) já foi ultrapassada pela corrupção.

Por trás da crise institucional que começa a dominar a campanha eleitoral, com risco de transformá-la numa espécie de plebiscito sobre quem rouba mais e consegue se safar melhor, desenvolve-se o enredo de construção de uma rede milionária de proteção política para o antigo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que está em prisão preventiva por trapaças em série.

É notável que, até agora, Vorcaro não tenha dito nada, já tentou fazer três delações premiadas e ninguém quis na Polícia Federal e na Procuradoria-Geral da República. Por enquanto, só quem “falou” foi o arquivo de um dos seus telefones apreendidos. Quase nada se divulgou, mas o pouco apresentado em público foi suficiente para detonar a confusão institucional de consequências eleitorais imprevisíveis que está aí.

O Supremo virou protagonista por sucessivos atropelos da Constituição, realçados pelo pecado favorito de alguns juízes, a vaidade. Governo e oposição se deixaram levar pelos ressentimentos, a digestão mais difícil, dizem os psicanalistas, com o Judiciário nos processos da Lava Jato e da frustrada tentativa de golpe de estado no 8 de janeiro de 2023.

E foi assim, sem dizer uma única palavra, que o ex-banqueiro das fraudes bilionárias Daniel Vorcaro rachou a República. A eleição presidencial ficou ainda mais imprevisível.