Cuidado: Apps falsos de emprego são usados para fraudar financiamentos em nome de vítimas

Folha de S.Paulo

Aplicativos falsos de emprego estão sendo usados por criminosos para roubar dados pessoais como Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e CPF e contratar financiamentos em nome das vítimas.

Já são mais de 10 mil casos sobre o tema nos tribunais brasileiros, segundo uma consulta aos diários oficiais das cortes. Os criminosos, também usando dados vazados na internet, podem fraudar contratos com o auxílio de correspondentes bancários que lucram com comissões sobre os empréstimos.

Em um dos casos, no Rio de Janeiro, os estelionatários usaram o CPF de uma moradora do Distrito Federal para financiar uma van usada no transporte irregular da baixada fluminense.

De acordo com a empresa de cibersegurança Tempest, que identificou aplicativos falsos usados em versão mais sofisticada do golpe, a vítima confirma o financiamento sem sequer perceber. A pessoa faz a verificação facial a fim de se candidatar para uma vaga, porém um vírus, na verdade, usa a biometria para validar um empréstimo veicular.

Um dos sites usados no golpe, chamado VagaFácil, pede dados como número da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e CPF para dar andamento à fraude.

Os criminosos usam uma técnica chamada “overlay“, que altera a tela exibida no celular. A vítima vê mensagens genéricas ligadas ao processo de recrutamento, enquanto, na verdade, aceita um contrato de financiamento.

O golpe só é possível porque os criminosos conseguem permissões sensíveis, como acesso à câmera, gravação de áudio, acesso à localização e armazenamento. De acordo com a Tempest, o vírus consegue atuar nos apps bancários de seis instituições financeiras, cujos nomes não foram divulgados.

“Nós compartilhamos as nossas descobertas com os bancos e com as autoridades do poder público”, diz Carlos Cabral, especialista em cibersegurança da Tempest.

Para se prevenir, além de não compartilhar dados pessoais em formulários e aplicativos de origem duvidosa, é possível bloquear a abertura de novos empréstimos na plataforma Registrato, do Banco Central, dizem advogados ouvidos pela reportagem.

Basta acessar a plataforma Registrato e ativar a ferramenta BC Protege+, que bloqueia a abertura de contas e operações de crédito sem autorização via plataforma Gov.br.

Os relatos que correm na Justiça mostram fraudes mais rudimentares do que o caso relatado pela Tempest. Nelas, os criminosos usam dados vazados na internet e contam com a cumplicidade de um correspondente bancário que aceita assinaturas digitais fáceis de falsificar.

Trata-se de um agente credenciado por um banco para oferecer serviços financeiros básicos, como pagamentos, saques e abertura de contas.

Em nota, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) diz que as instituições credenciadas seguem regras rigorosas de identificação e validação de clientes, autenticação reforçada, checagem de documentos e monitoramento de operações, em linha com normas do Banco Central do Brasil e legislação vigente. “Há investimentos contínuos em tecnologia antifraude, análise de comportamento e cooperação setorial para mitigar riscos”.

Foi assim que Sandra, sócia de um ferro-velho em Brasília que pediu para ter seu sobrenome omitido, teve seu CPF usado para o contrato de uma dívida de R$ 274.578,24, de acordo com o seu advogado Rômulo Fiuza e Mello.

Os estelionatários usaram o valor para financiar uma van, que já operava no transporte irregular de passageiros no Rio de Janeiro meses antes do financiamento. Era um veículo Mercedes-Benz, ano e modelo de 2012. O valor à vista do automóvel, R$ 126 mil, subiu para mais de R$ 274 mil com juros e impostos.

A gerente de Sandra, que a informou sobre o débito, enviou também o documento que selou o empréstimo, no qual constavam e-mails e endereços desconhecidos pela vítima. O contrato foi validado com uma assinatura eletrônica feita no Rio de Janeiro, enquanto Sandra estava em Brasília. O documento foi aceito pelo correspondente bancário.

De acordo com Fiuza e Mello, as vulnerabilidades usadas para abrir financiamentos fraudulentos são similares àquelas vistas nas fraudes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que funcionavam, em parte, a partir da concessão de crédito consignado não solicitado

Descoberto o escândalo previdenciário, com rombo avaliado em cerca de R$ 6 bilhões, o governo passou a cobrar biometria facial com prova de vida para confirmar as transações financeiras.

“Em processos de colegas, ouvimos casos em que os correspondentes bancários ganham cerca de R$ 700 por contrato, há um interesse em lucrar no volume”, diz o advogado.

Fraudes similares também estão no radar das autoridades policiais. A Polícia Civil de São Paulo prendeu 18 pessoas suspeitas de participar da fraude no financiamento de 278 automóveis, avaliados em R$ 22,6 milhões.

De acordo com as autoridades policiais, os criminosos usavam dados furtados e laranjas para obter financiamentos que não eram pagos. Então, negociavam as dívidas por um valor abaixo do cobrado pelos automóveis no mercado e os revendiam.

Segundo a Polícia Civil, os criminosos teriam movimentado R$ 129 milhões durante cinco anos. Além das 18 prisões nos municípios de Catanduva, São José do Rio Preto, Severínia, Paraíso e Pindorama, as autoridades apreenderam 56 veículos, 45 celulares, 198 cartões bancários, um revólver, 300 munições, joias e relógios.

Proteja-se da fraude do financiamento

  • Acesse o Registrato, pelo site do BC, e verifique se houve operações em seu nome;
  • Verifique se seus dados foram na internet; a ferramenta “Have I Been Pwned?” é uma opção;
  • Confira se há permissões para aplicativos desconhecidos nas configurações do smartphone; em celulares Android, as configurações ficam na aba de aplicativos, na janela “acesso especial”, enquanto em iPhones a opção fica na aba Privacidade e Segurança;
  • Caso o crime tenha se consumado, registre boletim de ocorrência e contate a sua instituição financeira;

Como funciona o BC protege+

  • Cidadão acessa a área logada do Meu BC com sua conta gov.br nível prata ou ouro com verificação em duas etapas habilitada;
  • Clica no botão Gerenciar a proteção no card BC Protege+;
  • Ativa a proteção no card Contas – abertura e inclusão;
  • Antes de abrir uma conta ou incluir um titular ou representante em uma conta, a instituição deve consultar opção registrada para o CPF ou CNPJ; se a proteção estiver ativada, ela não poderá fazer a contratação;
  • O cidadão pode ativar e desativar a proteção a qualquer momento, inclusive durante a jornada de contratação;
  • O cidadão também pode ver qual instituição realizou a consulta dos seus dados no sistema;
  • Para empresas, o serviço está disponível para sócios, representantes e colaboradores devidamente cadastrados no módulo de empresas da plataforma gov.br.