Datafolha aponta risco para Lula em Pernambuco com possível perda do voto “Luquel”

Blog do Mário Flávio

A eventual vinda do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Pernambuco para participar da campanha de João Campos (PSB) pode abrir um dilema eleitoral para o petista no estado. Dados detalhados da pesquisa Datafolha mostram que uma parcela relevante de seus eleitores também pretende votar na governadora Raquel Lyra (PSD).

O relatório completo do levantamento, divulgado pelo instituto após a apresentação dos primeiros números da pesquisa, aponta que 32% dos eleitores de Lula em Pernambuco afirmam votar em Raquel Lyra para o Governo do Estado. Outros 65% dizem apoiar João Campos, candidato do PSB, enquanto 3% não souberam responder ou preferiram não declarar voto.

Os números dimensionam o chamado voto “Luquel”, combinação que já esteve presente na eleição de 2022 e que, agora, pode voltar a ter influência na disputa estadual e nacional. Raquel não declarou apoio formal a Lula, mas costuma fazer referências positivas ao presidente em entrevistas e sabatinas, preservando uma interlocução que dialoga com parte do eleitorado petista.

A presença de Lula em um ato ao lado de João Campos poderia reforçar a campanha da Frente Popular, mas também gerar desconforto entre eleitores que pretendem manter o voto dividido. Ainda não é possível calcular se esse eventual desgaste resultaria em migração de votos, abstenção ou apenas insatisfação pontual. O dado da Datafolha, porém, indica que há uma base expressiva de lulistas que pode não acompanhar uma orientação direta do presidente na disputa pelo Palácio do Campo das Princesas.

Nos bastidores do PT, a avaliação sobre a agenda presidencial não é unânime. Inicialmente, a presença de Lula era vista como um reforço importante para as candidaturas proporcionais do partido e para a reeleição do senador Humberto Costa (PT). Hoje, porém, há preocupação de que uma agenda fortemente vinculada à candidatura de João Campos possa criar ruído com prefeitos e lideranças da base de Raquel que também apoiam Humberto.

Um dirigente petista que vota na governadora, sob reserva, resumiu a apreensão: “Tem muita gente apreensiva, pois Humberto está sendo votado por muitos prefeitos que são da base de Raquel e, se o presidente vier, alguns deles podem ficar contrariados e deixar de votar em Humberto”.

Na semana passada, Humberto afirmou que as tratativas sobre uma possível visita presidencial estavam a cargo de João Campos. A agenda, inicialmente projetada para esta semana, foi adiada para a próxima. Nos bastidores, a informação é que João tem insistido na presença de Lula em Pernambuco.

O cálculo ganhou ainda mais peso diante de pesquisas nacionais recentes que apontam cenário apertado, e, em alguns levantamentos, desvantagem numérica de Lula diante de Flávio Bolsonaro (PL) em eventual segundo turno. Pernambuco historicamente é um dos principais redutos eleitorais do petista. Por isso, preservar, e, se possível, ampliar, seu desempenho no estado pode ser estratégico para a disputa presidencial.

A visita de Lula, portanto, pode fortalecer João Campos, mas também testar os limites do voto dividido em Pernambuco. Para o presidente, o desafio será apoiar seu aliado sem afastar o eleitor que deseja votar nele e em Raquel Lyra.