
Nos dias de chuva intensa, surge o medo de uma tragédia anunciada diante da falta de estrutura em Pernambuco para conter danos. Frente às enchentes, à insegurança da vida e aos riscos de perdas de bens, comunidades precisaram criar alternativas para lidar com a demanda – que é antiga em todo o estado.
Após as fortes chuvas de 2022, que deixaram 134 mortos e mais de 125 mil desabrigados ou desalojados na Região Metropolitana do Recife (RMR), a rede formada por 20 comunidades deu início ao projeto, como estratégia de sobrevivência e combate ao racismo ambiental.
A criação de soluções possíveis para pessoas que vivem em áreas vulneráveis começou com estacas de madeira para medir o nível da água em cenários de enchentes.
“A gente tem uma casa, que é na parte mais baixa, e colocamos as madeiras com fita amarela para monitorar”, explica Joice Paixão, coordenadora territorial de engajamento da Rede GERA.
O plano comunitário de contingência engloba um mapeamento georreferenciado e um projeto de gerenciamento de risco e adaptação para as comunidades.
Do morro à beira do rio, a rede iniciou o planejamento com a escuta ativa dos territórios, considerando as particularidades de cada comunidade. Em seguida, parcerias foram realizadas com organizações da sociedade civil, universidades, iniciativas privadas e o poder público.
O resultado do trabalho de mais de dois anos é um conjunto de ações para mitigação das mudanças climáticas, que vai ser financiado pelo Governo do Estado.
Dentre os recursos estão a instalação de sensores meteorológicos comunitários, o desenvolvimento de uma plataforma digital colaborativa e o uso de drones para mapear áreas com risco de deslizamento.
O sistema vai monitorar, em tempo real, fatores como chuva, vento, temperatura e umidade e integrar dados para emitir alertas acessíveis e direcionados para cada comunidade, de acordo com o nível de urgência e vulnerabilidade local.
“A gente começou a entender que não tinha como fazer a proteção das pessoas se essas pessoas não entendessem o que estava acontecendo. A gente começa o mapeamento comunitário do território e esse mapeamento comunitário gera um plano de contingência, gerenciamento de risco e adaptação para essa comunidade”, pontua Joice.
De acordo com o Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas, realizado pela ONG Teto Brasil, no Nordeste 6% dos territórios afirmam ter recebido suporte do governo ou Defesa Civil após desastres. Dos entrevistados, 22% afirmaram que o apoio veio de ONGs, enquanto 20% das comunidades disseram que lidaram sozinhas.
O plano de contingência reúne informações como rotas de fuga em casos de emergências, indicando as opções mais viáveis para cada família, itens básicos para situações de evacuação e abrigos próximos.
Para o secretário executivo de Periferias da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh), Pedro Ribeiro, “não dá para pensar justiça climática sem justiça social e a gente quer levar essas políticas de estado também para os territórios”.
Em comunidades como a Vila Arraes, na Zona Oeste do Recife, o plano passa por diferentes etapas. Quando o primeiro alerta é emitido, brigadas comunitárias são acionadas e permanecem de prontidão. Grupos de logística também são mobilizados para apoiar eventuais necessidades, como remoção de móveis das casas ou organização de doações.
“A gente tem uma rede de comunicação na comunidade, com a comunicação feita de maneira digital com áudios no WhatsApp ou vídeos, inclusive mostrando com a imagem de satélite”, comenta Joice Paixão.
A eficiência do WhatsApp como rede de comunicação comunitária em situações de emergência é reiterada pelo levantamento da TETO Brasil. Em um cenário nacional, 72% dos territórios usam o aplicativo como a principal forma de alerta em cenários de crise.
À medida que o alerta aumenta, o plano muda. Caso necessário, as famílias em situação de maior vulnerabilidade podem ser encaminhadas às “famílias guardiões” ou a abrigos solidários para serem direcionadas às Defesas Civis do município ou do estado.
“Fofoqueiras da rua”
Joice pontua, ainda, a necessidade de comunicar o alerta para toda a comunidade. Para isso, leva em conta a restrição do acesso ao celular ou à internet, principalmente pelas pessoas mais idosas.
“A gente tem a comunicação analógica, que são as comunicadoras populares, que são basicamente as ‘fofoqueiras da rua’. A gente deu uma função social a elas porque são mulheres conhecidas por todo mundo, então a gente aciona elas”, conta.
Às comunicadoras cabe a tarefa de ir de casa em casa avisar do alerta e orientar o preparo da bolsa de sobrevivência, com itens essenciais em caso de evacuação.
A falha das políticas públicas em garantir dignidade na moradia dos pernambucanos tem impacto direto na saúde mental de quem está em áreas de risco e convive com o medo de ver a vida sendo arrastada e soterrada.
Em Jardim Monte Verde, comunidade de uma zona limítrofe entre o extremo sul do Recife e Jaboatão dos Guararapes, mais atingida pelas chuvas de maio de 2022, a população está adoecida.
Para Jaqueline Alves, agente de saúde aposentada que perdeu cinco familiares na tragédia, a chuva, que na infância remetia a brincadeiras, hoje é motivo de pânico. “Desde a tragédia, eu não durmo mais quando começa a chover. A gente quer o direito de poder dormir tranquilo e esse direito está sendo tirado”.
Dela, foi tirado o convívio com os familiares e a segurança do morar. Das suas duas irmãs, a saúde mental. A agente conta que suas irmãs precisaram ser afastadas do trabalho por depressão após a interdição de suas casas, com grau 4 de risco de desabamento. Elas receberam auxílio-moradia para as despesas.
Desde a implementação do projeto da Rede GERA, Joice Paixão relata que as pessoas têm se sentido mais seguras com os protocolos a serem seguidos.
“A gente destrincha as informações e as pessoas têm mais segurança. Se você não tem um protocolo de ação, muitas vezes acaba perdendo vidas”, conta.





