Decisão do governo Trump sobre PCC e CV será munição contra Lula na eleição

A man stands next to cars burnt during a barricade within the Operacao Contencao (Operation Containment) at the Vila Cruzeiro favela, in the Penha complex, in Rio de Janeiro, Brazil, on October 28, 2025. At least 2,500 agents took part in an operation to arrest drug traffickers from the Comando Vermelho (CV), which resulted in, at least, 18 suspects and several police officers dead. (Photo by Mauro PIMENTEL / AFP)

A decisão do governo Donald Trump de classificar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, anunciada nesta quinta-feira (28), pelo secretário de Estado, Marco Rubio, será amplamente explorada pela oposição para desgastar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha eleitoral. O governo Lula sempre foi contra a iniciativa, por temer que isso abra caminho para ameaças à soberania nacional, o que poderia incluir algum tipo de invasão estrangeira no país a pretexto de combater as organizações criminosas. Também pesa contra a avaliação brasileira de que isso dificultaria medidas de cooperação internacional para enfrentar o problema em detrimento de ações unilaterais.

A atuação dos Estados Unidos para classificar organizações criminosas estrangeiras como terroristas não é de agora. Em fevereiro do ano passado, o governo americano declarou como terroristas grupos do México (cartéis de Sinaloa, Jalisco Nueva Generación e Noreste) e a organização Tren de Aragua (Venezuela).  Desde a decisão, o governo americano bombardeou barcos apontados como utilizados pelos criminosos do Tren de Aragua para levar drogas aos Estados Unidos. Em Nova York, a polícia local prendeu diversos integrantes do bando venezuelano.

“Grande dia”, postou rapidamente nas redes sociais o senador e principal presidenciável da oposição, Flávio Bolsonaro (PL), minutos após a decisão do governo americano. O potencial para ele navegar nesse tema é imenso, já que ele havia revelado que a classificação como terroristas dos grupos brasileiros havia sido uma de suas reivindicações feitas ao presidente americano, Donald Trump, durante encontro entre ambos na última terça-feira. Na quarta, o presidenciável do PL também se encontrou com Marco Rubio.

O ex-vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PL) também celebrou a decisão dos EUA nas redes sociais. “Saiu da ‘reunião que não aconteceria’ para a defesa de todo o cidadão brasileiro que sofre com a violência de terroristas todos os dias. O início do fim dos ‘diálogos cabulosos!’”, escreveu. Eduardo Bolsonaro (PL) também postou vídeo agradecendo a Rubio e ao vice-presidente dos EUA, J. D. Vance pela medida.

Na campanha eleitoral, o bolsonarismo deve bater na tecla, já usada à exaustão na pré-campanha, de que o governo Lula não queria a mudança porque defende as organizações criminosas e não tem interesse real em enfrentá-las.

O discurso tem potencial porque o avanço das facções criminosas, com tentáculos em praticamente todo o território nacional, ajudou a alavancar a segurança pública como uma das principais preocupações dos brasileiros.

Pesquisa Genial/Quaest de maio mostra que a violência é a maior preocupação para 31% dos brasileiros, acima de corrupção (18%), problemas sociais (15%), educação (12%), economia (12%) e saúde (6%).

Outra pesquisa, a Meio/Ideia, também de maio, mostrou que 56,1% dos brasileiros acham que o governo Lula tem um desempenho ruim ou péssimo. Apenas 17,7% consideram o trabalho do petista como ótimo ou bom. Levantamento do Datafolha também de maio mostrou que a segurança é a área onde a gestão vai pior, com 16%.

Reação tardia do governo

Em maio, a pouco mais de cinco meses para a eleição, Lula lançou o programa Brasil Contra o Crime Organizado, um conjunto de iniciativas que prevê investimentos de até 11 bilhões de reais para combater os grupos criminosos baseado em quatro tópicos: asfixia financeira, melhoria da segurança nos presídios, combate ao tráfico de armas e aumento da elucidação dos homicídios.

Antes, Lula havia conseguido aprovar também o projeto de lei antifacção, que cria regras mais rígidas para combater organizações criminosas. O principal projeto do governo, no entanto, a PEC da Segurança Pública, que dá mais poder à união para enfrentar facções, continua à espera de aprovação no Congresso.