
Nas últimas duas eleições presidenciais, a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro impediu a consolidação de uma candidatura alternativa competitiva. Em 2018, o ex-ministro Ciro Gomes, então no PDT, até superou a marca de dois dígitos no primeiro turno, mas ficou na terceira colocação com 12,47% dos votos. Em 2022, o desempenho da pretensa terceira via foi ainda pior. Concorrendo pelo MDB, Simone Tebet acabou em terceiro lugar com apenas 4,16%. O mesmo Ciro Gomes registrou meros 3,04%. Diante do alto nível de rejeição popular ao atual presidente da República e ao sobrenome Bolsonaro, alguns partidos políticos voltaram a se animar com a possibilidade de finalmente romper a polarização. Comandado por Gilberto Kassab, tido como um exímio leitor da bússola do poder, o PSD apresentou três governadores como potenciais postulantes. Estava tudo encaminhado para que o mais competitivo deles, Ratinho Junior, fosse anunciado no páreo, mas ele desistiu de última hora, transformando o sonho de uma candidatura de centro, mais uma vez, em frustração.
Com fama de bom gestor, uma administração aprovada por cerca de 80% dos paranaenses e apoio de várias lideranças da direita, Ratinho Junior mudou de planos por uma combinação de fatores. Entre eles, o receio de que o escândalo do Master atingisse sua pretensão presidencial. O dono do banco, Daniel Vorcaro, e o cunhado dele, Fabiano Zettel, que exercia o papel de operador financeiro, negociam acordos de delação premiada nos quais devem tratar, entre outras coisas, da compra, por 20 milhões de reais, de parte do resort Tayayá, que pertencia a uma empresa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli com dois irmãos dele. O nome de Ratinho Junior não aparece nessa transação, mas pode ser tragado para o enredo porque uma outra unidade do complexo turístico, ainda em construção e também no Paraná, teve a empresa dos Dias Toffoli e o apresentador de TV Ratinho, pai do governador, como sócios investidores. Outro negócio de Ratinho pai teria contribuído para a desistência. O apresentador teve como patrocinador de um quadro de seu programa de auditório o Credcesta, um cartão de crédito consignado voltado às classes C e D, que se popularizou depois de uma parceria fechada entre o empresário Augusto Lima, antigo sócio de Vorcaro, e o então governador da Bahia e atual ministro da Casa Civil, Rui Costa.
Pego de surpresa, Kassab foi informado da possibilidade de rivais de Ratinho Junior usarem o caso Master contra o correligionário. Na segunda-feira (23), o governador anunciou que, “após profunda reflexão com sua família”, abandonou a corrida presidencial. Uma tremenda reviravolta. Antes de Flávio Bolsonaro ser anunciado como candidato a presidente, o apresentador Ratinho havia procurado o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, para negociar a formação de uma chapa em que o filho concorreria ao Planalto e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro seria a vice. Não deu certo. Depois, estudou-se uma nova alternativa: uma chapa com Flávio na cabeça e Ratinho Junior de vice. Também não prosperou. O governador então percebeu que rivais, particularmente no Paraná, estavam dispostos a miná-lo, recorrendo também ao fato de que, em seu primeiro mandato, o fundo que comprou a subsidiária de telecomunicações da Companhia Paranaense de Energia (Copel) tinha como acionista o empresário Nelson Tanure, investigado como possível sócio oculto de Vorcaro nas traficâncias do Master.
Em 2023, no segundo mandato estadual de Ratinho Junior, o braço principal da Copel, voltado para a área de energia, foi privatizado por mais de 5 bilhões de reais. O processo deve voltar à arena eleitoral tanto pela qualidade do serviço prestado à população quanto pelo preço arrecadado na venda. Procurada, a assessoria de Ratinho Junior disse que o governador não tem qualquer relação com o Master, que nunca viu o banqueiro Daniel Vorcaro e que a desistência da pré-candidatura presidencial foi resultado de pedidos de familiares para que não embarcasse no projeto político. A assessoria também informou que a privatização da Copel Telecom seguiu todos os procedimentos legais e que foi feita de forma transparente na Bolsa de Valores de São Paulo. O Grupo Massa, por sua vez, afirmou que o contrato de merchandising com o Credcesta foi fechado diretamente com o SBT, em uma época em que não pairavam suspeitas contra o Master, e que o apresentador de TV Ratinho deixou a participação no Tayayá, como investidor minoritário, ainda em 2024.
No campo político, surgiu um outro complicador para Ratinho Junior. O governador achava que faria o sucessor com facilidade, até que o PL de Flávio Bolsonaro filiou o senador Sergio Moro para concorrer ao cargo. Responsável pela condução da Operação Lava-Jato no Paraná, o ex-juiz aparece nas pesquisas como favorito. Ratinho Junior não quis pagar para ver e resolveu priorizar a disputa no Paraná, enterrando assim a principal aposta de uma opção de centro. “Minha preocupação é que essas brigas e esses arranjos de Brasília possam vir para o Paraná atrapalhar o desenvolvimento do nosso estado. Minha função é fazer um escudo disso e proteger o paranaense”, disse, na quinta-feira 26, em uma agenda no estado. Na última pesquisa Datafolha, o governador aparecia com 41% nas simulações de segundo turno, contra 45% de Lula. A grande dificuldade seria chegar à fase final da votação.
Apesar de aparentemente estreito, havia, e há, espaço para uma candidatura de terceira via. A segmentação do eleitorado seria prova disso. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, especializado em pesquisas, diz que 26% dos eleitores não votaram em Lula nem em Bolsonaro na campanha passada, ou votaram e se arrependeram. São os chamados “desiludidos ou desmotivados”. Outros 27% escolheram o petista, mas não se identificam como de esquerda, enquanto 18% optaram pelo capitão, embora não se reconheçam como de direita. Em tese, esses grupos somados, que representam 71% do total, poderiam ser conquistados por qualquer candidato. O núcleo duro da polarização seria formado por apenas 11% e 18% de esquerdistas e direitistas convictos, respectivamente. Ou seja: os extremos fariam barulho, pautariam a cobertura, alimentariam o algoritmo, mas seriam minoria, segundo Meirelles. Marqueteiro das campanhas vitoriosas à Presidência de Lula em 2006 e de Dilma Rousseff em 2010 e 2014, João Santana concorda e afirma que há uma “avenida enorme” para uma candidatura de centro neste ano.
O interessado no posto deveria priorizar a defesa da democracia, a reorganização dos programas sociais e um plano de desenvolvimento centrado nas novas tecnologias e nas novas relações de trabalho. “Crescerá o candidato de centro que esqueça a técnica emocional de bater nos dois lados e se concentre num discurso de conciliação nacional. O candidato precisa traduzir isso em paz, progresso e principalmente mais esperança para a grande massa de informais e deserdados”, diz Santana num vídeo publicado em suas redes sociais. O problema é que os representantes do centro, e não confundir com o Centrão adesista, nem sequer se posicionam de forma efetiva sobre questões relevantes. No Congresso, quase todo tema polêmico se torna refém da polarização, como a “taxa das blusinhas”, a PEC da Segurança Pública e até a CPMI do INSS. O eleitor até agora não sabe o que o PSD pretende fazer nas áreas da economia e da segurança pública. O histórico MDB, dividido como sempre em alas, se preocupa mais com querelas paroquiais e a disputa para a Câmara dos Deputados, cujo resultado é decisivo para a divisão dos bilionários fundos eleitoral e partidário. Já o PSDB, que governou o país por dois mandatos com Fernando Henrique Cardoso, perdeu quadros, capilaridade nacional e capacidade de dialogar com o eleitorado.
De acordo com alguns dos mais renomados institutos de pesquisa e estrategistas das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, a eleição será decidida por cerca de 15 milhões de eleitores considerados independentes. A maior parte da população já estaria comprometida com os favoritos na disputa, como mostra levantamento do Atlas em parceria com a Bloomberg, divulgado na quarta-feira (25). Nas simulações de primeiro turno com Lula e Flávio Bolsonaro, nenhum dos outros concorrentes supera os 5% de intenções de voto. Nelas, o desistente Ratinho Junior aparece com 3,4%. Os outros presidenciáveis do PSD, os governadores Ronaldo Caiado (Goiás) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), marcam 3,7% e 1,2%. No escrete eleitoral de Lula, nunca houve uma preocupação de fato com a hipótese de uma candidatura de centro ganhar corpo a ponto de chegar ao segundo turno. Apesar disso, há apreensão com a possibilidade de os escândalos de corrupção sob investigação, especialmente do caso do Banco Master e da roubalheira contra aposentados e pensionistas do INSS, pavimentarem o caminho para uma terceira via “antissistema”, que cresceria prometendo combate à corrupção e aos vícios da política tradicional, como fez Jair Bolsonaro em 2018.
Pela primeira vez numericamente à frente de Lula na simulação de segundo turno, com 1 ponto percentual de vantagem, Flávio Bolsonaro trabalhou desde o início para que o centro e a direita não apresentassem concorrentes na sucessão presidencial. Além de sugerir Ratinho Junior como seu vice, o senador mandou emissários sondarem Ronaldo Caiado e Romeu Zema para o posto. Ele argumenta que não há futuro para uma candidatura alternativa. Contrariando a tradição familiar de verborragia, tem economizado nas palavras, deixando Lula se desgastar sozinho com os problemas da administração federal. Quando o oposicionista se manifesta, é em terreno favorável. Nos últimos dias, defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública, ideia que foi sugerida por petistas a Lula, mas rejeitada pelo presidente da República. Em ascensão na disputa eleitoral, Flávio recebeu outra boa notícia. O ministro Alexandre de Moraes autorizou a prisão domiciliar humanitária para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que enfrenta problemas de saúde, por um prazo inicial de noventa dias. O capitão terá de usar tornozeleira eletrônica e ficará proibido de acessar redes sociais e de gravar áudios ou vídeos. É certo, no entanto, que estará mais à vontade para ajudar na organização da campanha do filho mais velho, que tenta vender a imagem de moderado na comparação com o próprio pai, considerado pelos adversários um extremista de direita.
Em tempos não tão distantes, adversários políticos não eram tratados como inimigos. No início deste século, houve até quem acreditasse na possibilidade de juntar os melhores quadros do PT e do PSDB para contribuir com um governo capaz de modernizar o país. Ainda predominava a crença de que, na democracia, os moderados prevaleciam, e moderavam os radicais. Hoje, as coisas não são bem assim. Mesmo quadros reconhecidamente ponderados se mantêm abrigados sob os guarda-chuvas da polarização para continuarem relevantes no xadrez político. É o caso do governador Tarcísio de Freitas, que de vez em quando escorrega no radicalismo para agradar ao padrinho político, Jair Bolsonaro. É o caso também do ex-governador Geraldo Alckmin, que caminhava para a aposentadoria política após receber 4,76% dos votos na eleição presidencial de 2018, mas aceitou voltar ao jogo como vice de Lula, seu antigo rival. Os extremistas, em algumas situações, estão conseguindo radicalizar os moderados. Caberá ao eleitor decidir se será assim mesmo. Soberano, ele tem vários caminhos a seguir. O do centro, como ocorreu nas últimas campanhas, continua bastante acidentado e sem uma liderança clara.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988.





