
VEJA
Desde que o bolsonarismo emergiu, no pós-impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, como uma força política capaz de alterar a balança da cena eleitoral brasileira, a sua tônica sempre foi a do conflito. Sob a regência de seu líder, Jair Bolsonaro, o movimento se consolidou de vez em 2018 e fagocitou a própria direita, que se aglutinou em torno do novo rosto durante os quatro anos de seu mandato. A usual beligerância política, muitas vezes anabolizada pelo alcance e rapidez das redes sociais, voltou a dar o tom nos últimos dias de forma até surpreendente. Primeiro, pelo naipe político dos contendores, figuras de proa da nova direita. Segundo, pelo momento em que se dá, já que a corrente tem perspectivas reais de vitória na corrida presidencial, com seu representante Flávio Bolsonaro (PL-RJ) empatado nas pesquisas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não à toa, o clima conflagrado mobilizou o presidenciável, preocupado com o desconforto fora de hora, inclusive onde mais se espera união na trincheira: o próprio clã Bolsonaro.
O mal-estar na direita já era anterior, mas o tiro de guerra foi dado num embate peso-pesado, com dois dos deputados federais mais votados da história brasileira. Eduardo Bolsonaro (PL-SP) acusou Nikolas Ferreira (PL-MG), de quem já foi muito próximo, de deboche e desrespeito e de usar o “algoritmo das suas redes para dar visibilidade” a opositores do bolsonarismo. O início da confusão começou com uma publicação de Nikolas em que ele atacava Lula e dizia que o Pix foi criado no governo Jair Bolsonaro. Ainda assim, Eduardo não gostou, porque o mineiro compartilhou junto um post de um perfil de direita que o Zero Três não considera aliado. “Denunciei que o ‘Spaces Liberdade’ não votará em Flávio Bolsonaro, ao menos no primeiro turno. Adivinhem quem prontamente compartilhou o perfil no mesmíssimo dia?”, postou. Após a repercussão, Nikolas respondeu com um “kkk” sobre a dura que havia levado de Eduardo, o que aumentou a confusão. “Risinho de deboche para mim, Nikolas? Ao que parece, não há limites para seu desrespeito comigo e minha família. Triste ver essa versão caricata de si mesmo”, escreveu.
Dentro do núcleo duro do bolsonarismo, foi a fagulha suficiente para gerar uma explosão. O episódio mobilizou a direita nas redes, dividiu influenciadores desse campo político e, como tem sido frequente, provocou desconfortos no clã Bolsonaro. Enquanto Carlos e Jair Renan se enfileiraram ao lado do irmão, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro adotou uma posição dúbia. No mesmo dia em que Eduardo e Nikolas se engalfinharam, ela postou um vídeo em que o mineiro falava sobre a Paixão de Cristo. Não foi a primeira vez que Michelle teve esse comportamento. Nos primeiros dias de janeiro, quando Flávio estava em peregrinação para conquistar o apoio de caciques de centro, ainda desconfiados de sua pré-candidatura, ela compartilhou um vídeo em que Tarcísio de Freitas (Republicanos) tecia críticas a Lula. O governador de São Paulo, naquele momento, era alvo de fogo amigo no clã justamente porque líderes do Centrão, resistentes a caminhar com Flávio, se animavam com a possível candidatura do ex-ministro. Recentemente, logo após Carlos ter dito que o pai enfrentava “crises de soluço intermináveis”, ela publicou que seu marido estava “há seis dias sem soluço” e que isso era “motivo mais que suficiente para me alegrar”. Também recentemente Michelle desmentiu que um vídeo feito por Eduardo durante uma conferência de direita nos EUA tivesse sido visto por Jair, o que contrariaria as regras da prisão domiciliar. Ainda em abril, a ex-primeira-dama repostou um vídeo do senador Esperidião Amin (PP-SC) logo após ele ser escanteado pelo bolsonarismo para dar lugar na chapa a Carlos, que mudou o domicílio eleitoral do Rio de Janeiro para Santa Catarina para tentar o Senado.
O pano de fundo do desconforto na direita parece trivial, mas não é: envolve o grau de adesão ao projeto presidencial de Flávio. Sempre bem posicionada nas pesquisas para o Senado e até como presidenciável, Michelle praticamente zerou a sua agenda política após Flávio ser escolhido o candidato do grupo. Formalmente, a alegação é que ela precisa se dedicar ao marido, que não só está preso, como tem problemas de saúde. “A ex-primeira-dama deixou claro que sua família, neste momento, é prioridade”, diz a deputada federal Rosana Valle (PL-SP), aliada de Michelle no PL Mulher, que tem atividades programadas para 17 e 18 de abril no Rio de Janeiro, mas sem ter certeza se a sua principal expoente irá.
A ausência de Michelle na campanha de Flávio é notada, ela não participou de nenhuma manifestação de apoio, mas é igualmente sentida por Valdemar Costa Neto, o presidente do PL. Ele aposta na ex-primeira-dama, que é forte entre mulheres e evangélicos, para eleger uma boa bancada no Congresso. Desesperado com o sumiço, chegou a ir ao hospital DF Star, em Brasília, na última semana de março para encontrar Michelle e definir as listas de candidatas mulheres nos estados. “Michelle tem uma importância considerável no segmento conservador e consegue conversar com as mulheres, um nicho mais fraco da direita bolsonarista. Mas ela não é uma liderança independente do Bolsonaro”, avalia a cientista política Carolina de Paula, coordenadora do Monitor do Debate Público (IESP-UERJ/Redem).
Os episódios recentes também ilustram uma questão mal resolvida na direita brasileira: quem vai herdar o espólio eleitoral de Bolsonaro. O que move o patrulhamento de Eduardo, não só em relação a Nikolas, é a necessidade de manter a fidelidade canina da direita ao clã. O embate de Eduardo e irmãos com Nikolas tem a ver com a ameaça que ele representa ao protagonismo da família. Enquanto Eduardo se gaba de ser o deputado mais votado da história do país (1,8 milhão de votos em 2018) e mantém forte influência sobre o irmão presidenciável (com quem conversa todos os dias), Nikolas (terceiro mais votado da história, com 1,5 milhão de votos em 2022) tem alcance digital massivo, capacidade de mobilização da base jovem e autonomia política. “Ele é um representante do bolsonarismo, mas não depende da família, e isso transforma o Nikolas numa coisa muito rara, um potencial sucessor que não é controlável. Ele pode se tornar maior que o próprio grupo que o ajudou a crescer”, avalia Deysi Cioccari, cientista política do Ibmec-SP.
O fogo amigo na direita tem preocupado Flávio Bolsonaro em um momento crucial da campanha. No último dia 4, ele divulgou uma gravação para pedir paz a seu campo político. “Estou gravando este vídeo para tentar chamar a todos para a racionalidade. É muito angustiante ver lideranças do nosso lado se digladiando enquanto a gente tem um país para resgatar e o inimigo não está aqui, está do lado de lá. Esse é o tipo de confusão que não tem um vencedor. Todo mundo sai perdendo”, disse. Embora esteja em ascensão nos últimos meses e em boa posição nas pesquisas pré-eleitorais, a preocupação do Zero Um é com o futuro de sua campanha. A imagem de campo conflagrado pode sabotar o plano de passar a imagem de uma candidatura moderada, siglas como União Brasil, PP, Republicanos e Podemos ainda não decidiram quem vão apoiar na corrida ao Planalto e podem se sentir desestimuladas a entrar em um barco em que todo mundo briga com todo mundo. “Se não houver um choque de ordem vindo de cima, a direita vai viver um 2026 com três ou quatro nomes fortes se batendo, o que é o sonho de consumo do Lula”, analisa o marqueteiro Wilson Pedroso, que trabalhou nas campanhas de João Doria, Pablo Marçal e Bruno Covas. A história não estimula muitas ilusões: todos que bateram de frente com os Bolsonaro caíram em desgraça com o clã, como os ex-deputados Joice Hasselmann e Alexandre Frota e os ex-ministros Gustavo Bebbiano e Santos Cruz.
Nos últimos dias, Flávio e Nikolas tentaram fazer algum movimento de pacificação. Na terça-feira 7, Eduardo seguia no ataque a Nikolas nas redes sociais quando o deputado se encontrou com o irmão Zero Um em Brasília. Na sede do PL, no lançamento de candidatos ao Congresso por Minas Gerais, os dois estavam um ao lado do outro e trocaram elogios. “Obviamente todas as nossas candidaturas aqui, Flávio, vão te servir para você realmente derrotar o PT. Nós somos o mesmo time, com posições diferentes, mas contra o mesmo inimigo”, disse Nikolas.
O cenário exige todo cuidado por parte de Flávio. Se os embates sempre foram algo corriqueiro na direita desde a ascensão do bolsonarismo, agora há um agravante: Jair Bolsonaro, o comandante, está preso. Flávio terá que mostrar que pode levar esse movimento a um pouso seguro em outubro, na pista da vitória. É uma viagem eleitoral sujeita ainda a muitas turbulências.
Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990.



