Ex-Lava-Jato, desembargador diz ter sido surpreendido por sociedade entre seu filho e Moro

Marcelo Malucelli e Sergio Moro: desembargador do TRF-4 explicou conexões com Moro ao CNJ

O Globo

Num depoimento ao CNJ, o desembargador Marcelo Malucelli, do TRF-4 (PR, SC e RS), afirmou que desconhecia uma sociedade num escritório de advocacia mantida entre seu filho, o advogado João Malucelli, e Sergio Moro.

O elo veio à tona um ano atrás, em meio a uma controversa decisão proferida por “Malucelli pai” num caso da Lava-Jato, operação da qual ele era relator na 8ª Turma da Corte (colegiado onde é presidente) e que já teve Moro como juiz titular na primeira instância no Paraná.

As declarações a respeito dessa sociedade foram prestadas pelo magistrado à Corregedoria Nacional de Justiça, num depoimento em 1º de junho de 2023, cujos registros foram disponibilizados aos interessados esta semana pelo CNJ. A oitiva durou cerca de 40 minutos, foi conduzida pelo juiz auxiliar Otávio Port e ocorreu no âmbito da correição feita pela corregedoria na Lava-Jato. Disse Malucelli:

— Fui pego de surpresa (…). É engraçado contar porque minha esposa, nervosa, disse em casa: ‘Inclusive, estão dizendo que você é sócio do Moro e não sei o quê. Que absurdo’. E ele (João, o filho) falou assim: ‘É, mas eu sou. Eu faço parte. Meu nome tá lá’ (…). Foi aquela surpresa geral em casa. Eu não sabia. Mas isso aí jamais interferiria nos meus julgamentos.

João, que namora a filha mais velha de Moro (Júlia, de 23 anos), também é sócio dela, do senador e de Rosangela Moro no escritório Wolff & Moro Sociedade de Advogados. O negócio não seria fonte de renda para João, que esteve até novembro passado no gabinete do deputado estadual Luiz Guerra (União-PR), por intermédio de Moro, com salário de R$ 10,8 mil. A sociedade seria só “protocolar”.

A empresa foi mencionada em representações movidas contra “Malucelli pai” por alvos da Lava-Jato (como Rodrigo Tacla Duran, advogado acusado de ser operador financeiro da Odebrecht), bem como por Renan Calheiros.

O CNJ apura se Malucelli agiu para restabelecer uma ordem de prisão contra Tacla Duran, que vive na Espanha, apesar de uma ordem do STF para que o tema ficasse restrito ao tribunal superior. Tacla Duran acusa a Lava-Jato, incluindo pessoas próximas a Moro, de tentar extorqui-lo.

Malucelli disse ao CNJ que, na verdade, não proferiu decisão para prender Tacla Duran. A informação foi publicada à época pelo site do próprio TRF-4 e, depois, removida. A medida, segundo a justificativa do desembargador, teria como objetivo apenas impedir o acesso de Tacla Duran a peças processuais.

Ainda de acordo com Malucelli, o namoro de seu filho com a filha de Moro começou há mais de cinco anos. O casal teria se conhecido num escritório de advocacia onde trabalharam como estagiários. Com o romance, o magistrado diz ter visitado “uma ou duas vezes” a casa de Moro, em razão do aniversário de Júlia. Ainda assim, não teria construído “relação pessoal” com o pai da nora:

— Não controlo os romances dos meus filhos, nem suas escolhas políticas ou profissionais (…). Eu sequer tive, durante toda minha vida, vida social com Sergio Moro. Só o conhecia do trato profissional, dentro do trabalho (…). Nunca tive convivência social.

Mesmo considerando que não mantinha relação próxima a Moro, Malucelli se afastou dos casos da Lava-Jato logo após a sociedade mantida pelo filho e o senador vir à tona. Ele, no entanto, diz que o fez por motivos de foro íntimo ligados à atuação do juiz Eduardo Appio, então à frente dos casos da operação no lugar que havia sido ocupado por Moro.

Appio, diz o magistrado, teria ligado para João em tom ameaçador, uma gravação do telefonema foi divulgada, e o juiz acabou afastado e trocado de função.