
A pouco mais de três meses das eleições, a disputa por uma das 25 cadeiras de Pernambuco na Câmara dos Deputados já começa a ganhar contornos definidos. Entre os diversos perfis de pré-candidaturas colocados para o pleito, um grupo chama atenção por concentrar o debate em temas ligados à identidade, aos costumes e à representação feminina.
De um lado, a deputada federal e pré-candidata à reeleição Clarissa Tércio (PP) e a também pré-candidata à reeleição Missionária Michele Collins (PP) mantêm o discurso voltado à defesa da família, dos valores cristãos e de pautas conservadoras. No outro extremo, a vereadora do Recife e pré-candidata à Câmara Federal Liana Cirne (PT) constrói sua atuação política em torno dos direitos das mulheres, igualdade de gênero, direitos humanos e ampliação de políticas públicas voltadas à diversidade.
Embora representem projetos políticos bastante distintos, as três pré-candidatas compartilham uma característica: utilizam temas ligados à identidade como uma das principais formas de dialogar com o eleitor.
Para o cientista político Antonio Fernandes, isso acontece porque, nas eleições proporcionais, o eleitor normalmente possui poucas informações sobre os candidatos e acaba recorrendo a elementos que facilitem sua decisão.
“Esses temas operam menos de forma racional e mais como marcadores da identidade social. Quando um candidato fala em defesa da família, valores cristãos ou direitos das mulheres, ele sinaliza a determinados grupos: ‘eu sou dos seus’. Isso reduz o custo informacional da escolha do eleitor”.
Muito além da divisão entre direita e esquerda
Embora as pautas de gênero e família frequentemente apareçam associadas à polarização política, Antonio Fernandes afirma que o fenômeno precisa ser compreendido também pela lógica do sistema eleitoral brasileiro.
Nas eleições para deputado federal, o eleitor vota diretamente em um candidato, e não em uma lista fechada organizada pelos partidos. Esse modelo, conhecido como lista aberta, faz com que a identidade do candidato muitas vezes tenha mais peso do que a própria legenda.
Segundo o cientista político, isso ajuda a explicar por que determinadas bandeiras se tornam tão presentes durante a campanha.
“Como temos muitos partidos e pouca informação disponível para o eleitor, essas pautas funcionam como atalhos cognitivos. Muitas vezes o eleitor lembra do pastor, da professora, da defensora das mulheres ou do policial, mas nem sempre lembra do partido em que votou”.
Essa lógica faz também com que candidatos invistam na construção de uma identidade política facilmente reconhecida pelo eleitorado.
A mesma representação, projetos diferentes
Apesar de integrarem um mesmo grupo demográfico, mulheres pré-candidatas à Câmara Federal, Antonio Fernandes destaca que seria um erro enxergar essas pré-candidaturas como representantes de um único pensamento político.
Segundo ele, a ciência política diferencia dois conceitos importantes: representação descritiva e representação substantiva.
A representação descritiva está relacionada às características do representante, como gênero, raça ou origem social. Já a representação substantiva diz respeito às ideias e projetos defendidos.
“As três são mulheres, o que caracteriza uma representação descritiva. Mas oferecem projetos substantivos quase antagônicos de representação”.
Na prática, isso significa que a presença feminina na disputa não implica, necessariamente, convergência em torno das mesmas pautas. Enquanto algumas candidatas defendem direitos ligados às mulheres e à igualdade de gênero, outras priorizam discursos relacionados à família, à religião e aos valores conservadores.



