Governo subestima demanda de diesel em 200 milhões de litros

Bomba de combustível

As vendas de diesel no país têm superado as projeções feitas pelo governo federal para 2022. Dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP), mostram que a demanda do mercado interno, só no 1º trimestre, foi de 200 milhões de litros a mais do que estimou o relatório mais recente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), publicado em abril. Em relação ao relatório anterior, a diferença foi ainda maior, de cerca de 500 milhões de litros.

A EPE faz parte do Comitê Setorial de Monitoramento do Suprimento Nacional de Combustíveis e Biocombustíveis, criado em março pelo Ministério de Minas e Energia para acompanhar a situação dos combustíveis no país. No mesmo mês, o ministério também instituiu, no comitê, a Mesa de Abastecimento de Óleo Diesel, grupo que se reúne semanalmente para monitorar o abastecimento do país e do qual a EPE também é membro.

Outros dados do setor de transportes reforçam o comportamento ascendente da demanda. Segundo a Fretebras, plataforma on-line de fretes de carga, o volume de fretes no país cresceu 37% no 1º trimestre, na comparação com igual período de 2021. O desempenho foi puxado principalmente pelo agronegócio e produtos industriais.

O cenário sinaliza que as previsões do governo para o 2º semestre também podem estar subestimadas. O Brazil’s Short-Term Fuel Market Outlook –relatório bimestral da EPE que mostra um panorama do mercado de combustíveis no país– projeta crescimento nas vendas, de julho a dezembro, só 0,2% maior que o total no mesmo período de 2021. Dez vezes menor que o avanço registrado até abril, de 2,1%.

Historicamente, a demanda brasileira no 2º semestre é maior por causa do pico da safra de grãos. Soma-se a isso o fato de as sanções à Rússia terem tirado parte da oferta do mercado, reduzindo os estoques globais de combustíveis.

Risco de desabastecimento

Para Sérgio Araújo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), o risco de desabastecimento do mercado interno é real.

“De fato, existe esse aumento na demanda. E a Petrobras e os demais produtores nacionais, nós já sabemos, não têm capacidade de atendê-la. Em outras palavras, a importação vai ser necessária. E como a Petrobras está com os preços defasados, está praticando os preços muito abaixo da paridade de importação, as atividades de importação ficam inviabilizadas. Isso, sem dúvidas, aumenta o risco de desabastecimento”, afirmou.

Segundo Araújo, o risco é maior para os postos de bandeira branca, sem contratos de exclusividade. Os chamados postos bandeirados, que ostentam as marcas de distribuidoras, possuem contratos que os protegem de cortes no suprimento.

“É natural que elas [as distribuidoras] vão estar priorizando a entrega do produto para os clientes, não só postos, mas para o cliente consumidor – as indústrias, as fazendas, os hospitais – aqueles que têm contrato, os que não têm contrato vão ser atendidos se tiver produto disponível”, disse o presidente da Abicom.