
Estadão
O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), chegou a pedir a renúncia de Motta. “Vossa Excelência está perdendo as condições de continuar na presidência dessa Casa”, disse o petista da tribuna, olhando para o colega.
Lindbergh afirmou que Motta cria “armadilhas” para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Cada semana é uma surpresa: foi assim quando ele pautou a votação para derrubar o decreto do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), a urgência para a anistia, a PEC da Blindagem e ao deixar caducar a Medida Provisória que taxava bancos e fintechs”, observou.
Para o deputado, Motta tem uma “atuação sistemática” contra o governo. “Sem combinar com ninguém, ele ainda chamou Guilherme Derrite, que era secretário da Segurança no governo de Tarcísio Freitas, para ser relator do projeto antifacção e, não satisfeito, jogou essa proposta de anistia envergonhada a golpistas”, descreveu. Procurado, Motta não respondeu às críticas.
Na última quarta-feira, um acordo de última hora construído pelo governo com o PSD salvou Glauber da “degola”, embora seu mandato tenha sido suspenso por seis meses. Em troca da não cassação, a esquerda prometeu apoiar a candidatura do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), ao Palácio Guanabara, em 2026.
Lula entrou nas articulações políticas e ligou para Glauber, logo após o resultado que o livrou da sentença de morte política. Pouco depois, no entanto, Arthur Lira foi visto ao telefone, muito irritado com o interlocutor do outro lado da linha.
Desafeto de Glauber, Lira queria a cassação do deputado, que sempre o associou à montagem do orçamento secreto de emendas. Expoente do Centrão, o ex-presidente da Câmara culpou Motta pelo fracasso naquela votação. Não foi só: admitiu a aliados, depois, que estava desanimado com o sucessor e apelou para a necessidade de um “freio de arrumação” na Câmara.
Na outra ponta, integrantes do PL, partido de Bolsonaro, também se queixaram de Motta. Três políticos da sigla disseram que ele traiu o ex-presidente, a quem havia prometido apoio à anistia quando era candidato ao comando da Câmara.
“Hugo está tentando fazer um jogo de conciliação, mas vem sendo mal-compreendido. Com isso, ele apanha da direita, da esquerda e do governo”, resumiu o deputado Danilo Forte (União Brasil-CE). “Aconteceu até um fato inusitado: os dois lados comemoraram as votações no plenário (que livraram Glauber e Carla Zambelli) e depois saíram falando mal dele”.
No caso de Zambelli, já condenada, o STF anulou a decisão tomada pelos parlamentares e determinou a sua imediata cassação. Foi outro revés para o presidente da Câmara, que ficou mal na foto.
Hugo está tentando fazer o jogo da conciliação, mas vem sendo mal-compreendido. Aconteceu até um fato inusitado: os dois lados comemoraram as votações no plenário e depois saíram falando mal dele, disse o deputado Danilo Forte.
Há no Planalto o receio de que essa indisposição com Motta, aliada à fúria de Alcolumbre e Lira, acabe provocando impacto negativo sobre a agenda econômica. Alcolumbre até hoje não aceitou o fato de Lula ter preterido o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) ao indicar o ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para compor o STF.
Líderes de partidos também têm se queixado do atraso no pagamento das emendas, hoje sob a mira do STF, às vésperas do ano eleitoral.
O governo precisa que o Congresso aprove o projeto de redução dos benefícios fiscais e até a proposta de Orçamento. Sem o corte de gastos tributários faltarão R$ 20 bilhões para fechar as contas de 2026.
“Sempre defendo o Congresso como expressão da democracia, mas as Casas optaram por uma agenda extremamente impopular, que gera instabilidade institucional. Uma agenda de confronto político”, argumentou o presidente do PT, Edinho Silva.
No diagnóstico do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), o principal problema, porém, é a degradação do ambiente no Congresso. “É claro que muitas vezes a culpa de tudo cai no presidente da Casa, mas o fato é que o nível aqui dentro está muito deteriorado. O princípio da lacração virou a regra geral”, constatou.
Guimarães propôs uma espécie de pacto de boa convivência. “Eu acho que, independentemente de ser governo ou oposição, as cabeças lúcidas do país deveriam parar e pensar: O que vamos fazer desse plenário que tantas vezes foi o bastião da luta contra a ditadura e hoje é só esculhambação?”, perguntou ele, enquanto deputados do PL e do MDB trocavam insultos a poucos metros de uma escultura em bronze. Era de Ulysses Guimarães.





