Investigações mostram o avanço de facções criminosas sobre classe política e instituições

CERCO - Casa do ex-deputado Uldurico Júnior, em Eunápolis, na Bahia: preso por facilitar a fuga de chefe de facção local

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Na manhã de quarta-feira (03), uma operação da Polícia Civil de Alagoas contra a facção criminosa Comando Vermelho saiu às ruas para cumprir 51 mandados judiciais na Região Metropolitana de Maceió e no estado do Rio de Janeiro. Terminou com vários presos, entre eles o influenciador Patrick de Almeida Silva, conhecido como PTK, dono de 180 000 seguidores no Instagram e, segundo a investigação, incumbido de uma missão pela cúpula local da facção: ser candidato a deputado federal (ele é filiado ao MDB, mas já passou por PP e Solidariedade). No início de maio, José Weder Basílio Rabelo (PP) tornou-se o sexto vereador de Morada Nova (CE) preso neste ano sob suspeita de, entre outros crimes, ter campanhas financiadas por uma poderosa falange cearense, a Guardiões do Estado, que tem conexões com grupos do eixo Rio-São Paulo, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Terceiro Comando Puro (TCP). Os dois casos não são exemplos isolados, mas parte de uma onda de sinais persistentes de que o crime organizado, cada vez mais, se entrelaça com a política.

O grande número de investigações que encontraram evidências desse elo pelo país acendeu a luz amarela nas autoridades em Brasília. Em abril, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, reuniu membros das procuradorias eleitorais de todo o país para dar um recado poderoso: a infiltração do crime organizado é um risco tão grande ao processo democrático quanto a disseminação de fake news e o uso de inteligência artificial. A ameaça, como tudo que envolve o crime organizado, se apresenta com vários tentáculos: inclui financiamento de políticos, imposição de voto em áreas dominadas, restrição à circulação de candidatos que não têm o aval da facção e até a eliminação de opositores pela violência. “Temos que trabalhar para que o eleitor possa formar sua opinião de forma livre, sem pressões econômicas, psicológicas ou políticas”, disse Gonet na reunião.

O primeiro desafio já foi traçado: barrar, tanto quanto possível, candidatos ligados ao crime. O Ministério Público Federal criou um grupo de trabalho eleitoral que irá articular a troca de dados entre os órgãos de inteligência do MP e os grupos especiais de combate ao crime organizado (Gae­cos). O objetivo é obter o maior número de indícios contra pessoas investigadas e impedir que integrantes ou nomes financiados pelas facções cheguem às urnas. Caso algum desses suspeitos consiga apresentar os documentos à Justiça Eleitoral, o MP vai requisitar a impugnação. A jurisprudência recente do TSE avançou no sentido de barrar suspeitos antes mesmo da tramitação de processos. Desde 2024, uma instrução da Corte aponta que, já na primeira instância, a partir de sentença de um juiz, o indivíduo que tem ligações com o crime já fica proibido de participar do pleito. Até então, para tornar-se um candidato inelegível, havia necessidade de ele ser condenado por um colegiado.

O modelo adotado pela Justiça Eleitoral brasileira visa evitar que um processo contra um criminoso se arraste a ponto de ele ser diplomado, em caso de eleição. Foi exatamente o que ocorreu na Colômbia, quando o maior traficante do país, Pablo Escobar, conseguiu ser deputado federal entre 1982 e 1984. A meta era ampliar a influência política, o que conseguiu. Ao saber que estava sob investigação, Escobar determinou o assassinato do então ministro da Justiça, Rodrigo Lara Bonilla. Ao mesmo tempo que cometia ou ordenava crimes, o traficante era idolatrado em regiões carentes de Medellín por ajudar pessoas esquecidas pelo Estado, modelo já copiado por grupos criminosos no Brasil. Na Itália, a influência política de três poderosas máfias (Cosa Nostra, ‘Ndrangheta e Camorra), que durante anos foi uma grande ameaça ao Estado, elegeu em 1970 até um prefeito, Vito Ciancimino, o “Don Vito”, em Palermo.

As conexões recentes descobertas em investigações policiais mostram que a prática das facções de se infiltrarem no poder público é generalizada pelo país. Em setembro do ano passado, o então deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Jóias e à época filiado ao MDB, foi preso em operação da Polícia Civil e do MP do Rio de Janeiro sob a acusação de conexão direta com o Comando Vermelho. Entre outros crimes, ele foi acusado de intermediar a compra de fuzis e de equipamentos antidrones para a organização criminosa. Em abril deste ano, o ex-­deputado federal Uldurico Júnior, que já passou por nada menos que seis partidos, acabou detido sob a acusação de ter recebido 2 milhões de reais para facilitar a fuga de dezesseis criminosos do Primeiro Comando de Eunápolis, ligado ao CV, da cadeia local, na qual tinha influência por ter indicado a diretora. Entre eles estava Ednaldo Pereira de Souza, o Dada, chefe do tráfico em Caraíva e Trancoso, que fugiu para o Rio. Em abril, foi alvo de operação policial no Vidigal, que terminou em tiroteio e deixou ilhado um grupo de cerca de 200 turistas, o traficante conseguiu fugir.

A contaminação política pelo crime já produziu, inclusive, instabilidade institucional em algumas localidades. Em Cabedelo, cidade de quase 70.000 habitantes na Região Metropolitana de João Pessoa, no litoral da Paraíba, a prefeitura experimentou um entra e sai de prefeitos diante de investigações da Polícia Federal que apontaram proximidade dos políticos com a Tropa do Amigão, facção local aliada ao Comando Vermelho. Foi com esse entendimento que o TSE cassou definitivamente o mandato do então prefeito André Luís Almeida Coutinho (Avante) e da vice Camila Lucena (PP) em abril deste ano. De acordo com o Ministério Público Eleitoral, os dirigentes nomeavam pessoas ligadas à facção para cargos comissionados e empregos terceirizados na prefeitura, mediante indicações do tráfico. Após sua cassação, a cidade fez uma eleição suplementar e elegeu Edvaldo Neto (Avante), ex-­presidente da Câmara, que foi afastado dois dias depois, também por suspeita de envolvimento com o crime organizado, uma operação de busca e apreensão encontrou quase 100.000 reais em dinheiro vivo na sua residência. Seu vice, Evilásio Cavalcanti (Avante), é quem governa a cidade hoje. A forma de cooptação política pelas facções detectada na cidade paraibana ilustra parte do modus operandi registrado também em outros locais do país. O esquema envolvia a utilização de criminosos para compra de votos (com dinheiro e “políticas assistenciais”, como doação de cestas básicas), coação de eleitores e uso da máquina pública para beneficiar candidatos apoiados pelo crime.

O risco ao processo eleitoral representado pelo poderio crescente das facções preocupa, entre outros motivos, pela dificuldade que as instituições tiveram até agora no seu enfrentamento. Isso abriu brecha para o governo americano classificar PCC e CV como grupos terroristas, a pretexto de combater a atuação deles no território dos Estados Unidos. No Brasil, um dos problemas é a falta de coordenação entre os entes públicos, o que dificulta a investigação, a condenação e o afastamento de pessoas envolvidas com o crime. Outro problema é a dificuldade para asfixiar financeiramente as falanges. “O bloqueio do dinheiro é importante para deixá-las sem condições de bancar campanhas eleitorais”, diz o advogado André Fini Terçarolli, que atua no Grupo de Estudos Avançados em Direito Penal Eleitoral do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM).

Alertas para o avanço da ameaça não faltam. “O Brasil vê um cenário de infiltração crescente de facções nas estruturas políticas e policiais, com tentáculos perigosos no financiamento eleitoral, em contratos públicos e no sistema financeiro nacional”, apontou relatório da Transparência Internacional publicado em fevereiro. Uma das principais autoridades em crime organizado no Brasil, o promotor Lincoln Gakiya, de São Paulo, vem alertando há tempos sobre o risco de o país virar um “narcoestado”. Em abril, a Operação Contaminatio, da Polícia Civil, desencadeada em sete cidades paulistas, desarticulou um esquema do PCC para infiltrar integrantes e aliados em prefeituras, para lavar dinheiro do tráfico, fraudar licitações e desviar verbas.

Ao se posicionar contra a classificação das facções Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como terroristas pelos Estados Unidos, o governo brasileiro alega, em síntese, que elas são movidas por dinheiro e não por interesses ideológicos ou políticos. As crescentes conexões entre esses grupos e as instituições de Estado, que já preocupam até a cúpula das autoridades envolvidas no processo eleitoral, no entanto, podem colocar em xeque essa tese.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998