Janja diz ser alvo de misoginia e que críticas sobre gastos em viagens são para atacar Lula

Estadão

A primeira dama Rosângela “Janja” da Silva disse que é alvo de misoginia, negou crer que há a necessidade de se criar um cargo que ela efetivamente exerça no Palácio do Planalto e afirmou que críticas sobre gastos dela em viagens são para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Eu não sei se um cargo é o fato. Porque não existe um cargo para o lugar que estou”, afirmou, em entrevista ao programa Frente a Frente, do UOL em parceria com a Folha de S. Paulo.

Janja criticou ataques que ela sofre, em especial o Janjômetro, site criado pelo deputado estadual por São Paulo Guto Zacarias (Missão), que menciona gastos públicos com viagens que a primeira-dama faz parte.

“É mais fácil me atingir para atingir o presidente da República. Faz parte da estratégia política da extrema-direita. Contra isso eu não tenho como debater”, afirmou Janja. Checagem do Estadão Verifica mostrou que o conteúdo do Janjômetro é enganoso e exagera valores de viagens.

Nessa mesma entrevista, Janja também disse que todas as atividades políticas dela são “públicas” e ”transparentes”. Foi uma orientação normativa elaborada pela Advocacia-Geral da União (AGU) em abril 2025, porém, que fez com que o Planalto passasse a divulgar a agenda da primeira-dama. O parecer da AGU recomenda a divulgação da agenda de compromissos públicos em site oficial, bem como das informações de despesas e viagens por meio do Portal da Transparência.

O Estadão mostrou, por exemplo, que em 2024 o governo desembolsou R$ 203,6 mil para custear a estadia da comitiva de Janja em Paris. A primeira-dama, que não exerce cargo oficial no governo federal, foi representante do Brasil em eventos como as Olimpíadas de Paris e a Cúpula do G-20. Também em 2024, uma viagem de Janja ao Catar, com assessores e policiais, custou pelo menos R$ 283,3 mil.

Em março de 2025, Janja integrou a comitiva oficial do presidente Lula ao Japão e ao Vietnã, que incluiu ao menos 220 pessoas, ao custo de R$ 4,5 milhões.

“A sociedade brasileira nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse. Eu vou quase todo dia ao Planalto, faço reunião, agenda, viajo a trabalho. A sociedade brasileira e a imprensa não estavam acostumadas com isso”, afirmou Janja.

Ela disse que algumas decisões dela em viagens são resultado de medidas de segurança em razão da função que ela ocupa. “Procuro me hospedar nas embaixadas. Eu viajo de executiva também por uma questão de segurança. Não viajo na econômica porque eu tenho alguns regramentos que tenho que seguir”, afirmou.

A primeira-dama também negou que será candidata a algum cargo eleitoral. “Não sou candidata a nada, não pretendo ser”, disse.

Janja se evadiu de comentar sobre o cenário eleitoral; não comentou sobre o cenário eleitoral e, perguntada sobre o futuro do PT pós Lula, disse que cabe ao partido definir um sucessor.

“O partido que tem a responsabilidade de construir esse nome (que vai suceder Lula)”, afirmou. Lula será candidato à reeleição. Se triunfante, o presidente terminará o segundo mandato com 85 anos. Ainda assim, Janja espera ainda aproveitar tempo com o marido fora da Presidência.

“Depois eu quero realmente viver minha vida de mulher casada, de a gente poder viajar tranquilo. A gente não viveu ainda, não teve lua de mel, não viveu a vida de um casal normal. A gente senta no sofá, assiste a filme, série, toma cerveja, porque a gente precisa ter esses momentos. É difícil viver com um monte de gente atrás, um monte de segurança”, disse.

’Nenhuma mulher em sã consciência faria um aborto’, diz Janja

Questionada sobre a posição dela sobre o aborto, Janja também evitou dar uma resposta direta. Para ela, se fala pouco de prevenção, o que seria uma política pública eficaz para evitar o aborto. Em seguida, ela disse crer que nenhuma mulher em sã consciência faria um aborto. Ela se interrompeu enquanto fazia o raciocínio.

“A gente precisa falar de prevenção. A gente fala muito pouco sobre prevenção. Acho que ainda tem o tabu dentro das famílias de falar de prevenção”, afirmou. “A gente precisa falar mais sobre isso. Não é uma questão de discutir o aborto. Nenhuma mulher em sã cons… não sei, estou falando por mim, pela minha formação, faria um aborto”.

Ela insistiu que a questão principal é a prevenção em casos de gravidez indesejada. “Se é indesejada (a gravidez), ela deveria se proteger. A questão principal é prevenção. A gente tem uma rede pública tão forte que pode atender isso que a gente não precisaria estar discutindo aborto. A gente pode falar mais sobre prevenção. Essa é a questão para mim”, afirmou Janja.