
VEJA
Até Dilma Rousseff, que nunca tinha disputado uma eleição antes de concorrer à Presidência, sabia: em época de campanha, faz-se o diabo para vencer a votação. Em busca de um novo mandato, a então presidente seguiu a cartilha de gastos do PT, prometeu investimentos bilionários e acusou os adversários de planejarem uma tesourada nos programas sociais. Reeleita, ela desceu do palanque, reconheceu o descalabro das contas públicas e encomendou ao Ministério da Fazenda um ajuste fiscal. Deu tudo errado, na política e na economia, e o resto da história é conhecido. Responsável por domar a inflação e realizar reformas econômicas, o tucano Fernando Henrique Cardoso fez algo parecido. Ele manteve o real forte até ser reeleito e depois permitiu a maxidesvalorização da moeda, que fez o país bater às portas do Fundo Monetário Internacional (FMI) com um pedido de socorro financeiro. Já Jair Bolsonaro convenceu o Congresso, a quatro meses do pleito, a autorizá-lo a gastar mais de 40 bilhões de reais. O capitão fez de tudo um pouco, do aumento do valor do Bolsa Família à distribuição de dinheiro para caminhoneiros, mas perdeu o páreo.
Prestes a concorrer pela sétima vez ao Palácio do Planalto e com a experiência de quem garantiu ao PT cinco vitórias nas últimas seis corridas presidenciais, Lula conhece como poucos o poder da máquina pública e a eficácia de certas medidas eleitoreiras. Desde meados do ano passado, diante da crise de imagem de sua gestão, ele já anunciou mais de uma dezena de iniciativas que, somadas, giram em torno de 200 bilhões de reais, um recorde na história. Fazem parte da lista novas linhas de crédito, ampliação de programas, como o de distribuição de gás de cozinha, e isenções de tributos e subvenções destinadas a conter o aumento do preço dos combustíveis. O presidente parece atirar para todo lado, mas tem alvos bem definidos: setores da economia e nichos do eleitorado que são refratários a ele ou que ficaram distantes do receituário do PT.
Numa solenidade no Palácio do Planalto, Lula lançou uma linha de crédito de 30 bilhões de reais, com juros reduzidos e até 72 meses para pagar, a fim de ajudar motoristas de aplicativos e taxistas a trocarem de carro. Dias antes, o governo já havia anunciado outra linha, de pouco mais de 20 bilhões de reais, para impulsionar a compra de caminhões e ônibus. Como se sabe, entidades de caminhoneiros marcharam ao lado de Bolsonaro em 2022. Já motoristas de aplicativos, reconhecem os próprios petistas, não nutrem muita simpatia pelo governo, que, segundo os críticos, teria uma visão anacrônica sobre os empreendedores autônomos. A derrama de recursos é uma tentativa de aproximar as partes. “Esse é um dia histórico. Trabalhador de aplicativo, que está sendo inviabilizado o tempo todo, que sofre preconceito, racismo, hoje divide o palco com o presidente da República”, disse um representante da categoria em discurso no Palácio. A fala dele, um recorte feito sob medida, foi divulgada nas redes sociais do presidente.
Na maior parte de seus três mandatos, Lula estimulou a concessão de crédito como forma de impulsionar a economia. No ano passado, autorizou a contratação de empréstimo consignado por trabalhadores. Neste ano, reforçou em 20 bilhões de reais o caixa dos programas Minha Casa, Minha Vida e Reforma Casa Brasil, que alimentam o sonho da casa própria de muitos brasileiros. Economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), João Paulo Pio calcula que o conjunto de ações de estímulo ao crédito deve adicionar até 230 bilhões de reais ao estoque total de financiamentos e aumentar o núcleo da inflação em até 0,5 ponto percentual em um período de doze a dezoito meses. “É evidente que esse cenário de estímulo ao crédito deve pressionar a inflação, impedir maior flexibilização da política monetária e deixar os juros elevados por um período maior”, afirma Pio. Não é o único efeito colateral.
A pregação presidencial contribuiu para o endividamento recorde das famílias brasileiras, que ajudou a piorar a popularidade de Lula. O presidente, então, encomendou à sua equipe uma nova rodada de renegociação de dívidas. Para bancar o programa, o governo prometeu injetar 15 bilhões de reais num fundo que garante o pagamento de débitos repactuados por bancos em caso de calote. Também está no radar a renegociação de dívidas do agronegócio estimadas em 180 bilhões de reais, o que pode ser feito por meio de um projeto em tramitação no Congresso ou medida provisória. No geral, o agro forma uma base de apoio importante do bolsonarismo e não vê com bons olhos a reeleição de Lula. No fim do mês passado, o presidente não participou da abertura da Agrishow, a principal feira agrícola do país, em Ribeirão Preto. Na ocasião, ele foi representado pelo vice, Geraldo Alckmin, que divulgou uma linha de crédito de 10 bilhões de reais para troca de máquinas. O agrado foi considerado insatisfatório, e o setor quer a renegociação do estoque bilionário de débitos.
Em seu esforço para melhorar a própria imagem, Lula correu para conter o impacto do aumento do preço dos combustíveis, contando com ajuda da arrecadação recorde da Petrobras com a alta do petróleo. Ciente da preocupação da população com a criminalidade, prometeu 11 bilhões de reais para a segurança pública. Ele ainda afirmou que criará um ministério específico sobre o tema quinze dias depois de o Congresso aprovar a “PEC da Segurança Pública”, emperrada devido a uma queda de braço entre governistas e oposicionistas. “Não posso aceitar a ideia de que os bandidos dominam territórios. O território em qualquer cidade, qualquer estado, é do povo brasileiro. O bandido tem de ser punido, tem de ir para a cadeia”, disse o presidente numa entrevista, externando uma veemência que não aparece nas ações oficiais. Lula, é preciso frisar, não é o único governante que se sente incentivado a abrir os cofres e turbinar os gastos em anos de eleição, porque quer a reeleição ou fazer o sucessor.
A profusão de iniciativas divulgadas pelo atual governo tem o condão de chamar a atenção dos eleitores, inclusive dos indecisos, que são considerados decisivos para o resultado da próxima votação. “Isso também serve para você tentar buscar um nicho do eleitorado que não é propriamente o seu, ou o swing voter, que fica meio pendente dentro de um contexto eleitoralmente polarizado”, diz o professor Leon Victor Queiroz, doutor em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Historicamente, os candidatos à reeleição tendem a ganhar popularidade com o avanço da campanha, quando usam e abusam da máquina pública e das engrenagens oficiais de propaganda.
A recuperação de terreno, no entanto, tem se mostrado inglória para Lula. Há pelo menos um ano, a desaprovação ao governo supera a aprovação. Em maio do ano passado, o saldo negativo era de 17 pontos. Em dezembro, caiu para 1 ponto, mas subiu de novo para 9 em abril. Em maio, em meio ao pacotão eleitoreiro, baixou para 3 pontos, segundo dados da Genial/Quaest. Levantamentos recentes também mostram que a vantagem de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro aumentou depois da divulgação de áudios e mensagens em que o filho mais velho de Jair Bolsonaro pede 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e protagonista da maior fraude bancária da história do país, supostamente para financiar a produção de um filme sobre o capitão. Conforme o último Datafolha, o petista tem agora 47% na simulação de segundo turno, contra 43% do oposicionista.
Além de abrir a torneira de gastos, o presidente aposta na ofensiva para reduzir a escala de trabalho de 6×1 para 5×2, sem redução de salário. A Câmara aprovou a mudança, que ainda depende de aval do Senado. O governo gastou 80 milhões de reais apenas em publicidade para impulsionar o tema nas redes sociais e nos veículos tradicionais de mídia, sob o slogan “Fim da escala 6×1, mais tempo para viver”. Com essa bandeira, Lula quer se apresentar mais uma vez como defensor dos trabalhadores e dos mais pobres, em contraposição à oposição, que ficaria sempre do lado dos mais ricos. O velho mantra do “nós” contra “eles” nunca sai de cena, é apenas remodelado. No caso do fim da escala 6×1, dada a popularidade do tema entre os eleitores, a oposição se viu obrigada a endossar a medida. Comissões e sindicados patronais seguem fazendo pressão para evitar a mudança, que pode ter o efeito colateral de provocar demissões e aumento de preços. Pressionado por empregadores, Flávio Bolsonaro declarou que defende um sistema em que o funcionário receba por hora trabalhada. Já o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, bradou a favor de uma escala 4×3. Na campanha, o diabo também se manifesta por meio do vale-tudo irresponsável.
Enquanto o presidente acelera a agenda positiva, o Zero Um tenta sair das cordas. Na terça-feira 26, ele foi recebido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca. Posou para foto com o anfitrião, com quem disse ter conversado sobre o estado de saúde de Bolsonaro pai e sobre o pedido para que o governo americano declare o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas, medida rechaçada pela gestão Lula. A fotografia do encontro correu as redes sociais como uma demonstração de força do parlamentar, e também como uma tentativa dele de recuperar apoios entre eleitores de direita que ficaram contrariados com a revelação de sua conversa com Vorcaro. As pesquisas mostrarão o impacto na opinião pública, se é que houve, da viagem a Washington. Do ponto de vista de popularidade, Trump até agora foi mais útil a Lula do que aos bolsonaristas. Depois de dar ao petista uma chance de empunhar a bandeira da defesa da soberania nacional, o americano ainda se rendeu aos encantos do brasileiro, passando a elogiá-lo.
Pela letra fria da lei, Lula não poderia pedir votos tão livremente como faz agora. Assim como seus antecessores, ele também não poderia abusar de iniciativas eleitoreiras e com potencial para desequilibrar a balança da votação, mas a Justiça Eleitoral tem um histórico bem peculiar, no qual se destaca o julgamento em que absolveu a chapa formada por Dilma Rousseff e Michel Temer por “excesso” de provas. Integrantes do núcleo jurídico do PT admitem que, em tese, as bondades do governo podem render punição caso sejam enquadradas como abuso de poder político e econômico. Mas eles acrescentam não temer qualquer sanção porque a regra no Tribunal Superior Eleitoral seria impor punição rigorosa a políticos vitoriosos em eleições majoritárias apenas em casos de irregularidades acachapantes, como ocorreu recentemente com o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), tornado inelegível em um processo que o acusava de ter contratado milhares de eleitores fantasmas com pagamentos em dinheiro vivo.
No caso de Lula, os petistas alegam que distribuir botijões de gás para a população carente ou ampliar um programa existente há anos são ações legítimas, da mesma forma que tentar atenuar o preço dos combustíveis no Brasil em razão da guerra entre Estados Unidos e Irã. “Se o caso envolvesse o prefeito de uma pequena cidade, qualquer medida desse pacote gracioso do governo levaria à conduta vedada de abuso de poder, mas é muito comum que o TSE e a Justiça Eleitoral sejam muito mais rigorosos em pequenos casos”, afirma Fernandes Neto, coordenador acadêmico da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político. Até outubro, portanto, seguindo essa lógica peculiar, Lula pode gastar à vontade. A oposição reclamará e recorrerá à Justiça, mas o petista dificilmente será incomodado. A fatura do desarranjo das contas públicas será apresentada ao próximo presidente eleito, que terá de lidar com o risco de paralisia da máquina pública e de suspensão do pagamento de obras, programas e benefícios. Quem faz o diabo na campanha muitas vezes enfrenta demônios no exercício do mandato.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997



