Na reta final, disputa acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro acende alerta na campanha petista

No feriado da Independência, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, reuniu quase 30.000 apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, e bradou palavras de ordem contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que voltou ao centro do noticiário após a divulgação de novos detalhes de suas relações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Do alto do carro de som, o Zero Um pediu o afastamento do magistrado do cargo, mas o principal alvo de sua ofensiva era outro: Lula, com quem disputa palmo a palmo a corrida eleitoral. “Quem vota em Lula está votando em Moraes”, declarou. No dia seguinte, o filho mais velho de Jair Bolsonaro, embalado pela crise de reputação que atinge o STF, realizou uma caminhada em Juiz de Fora (MG), município em que, na campanha de 2018, seu pai sofreu um ataque a faca. Enquanto seu rival celebrava o impacto positivo dos dois atos, Lula fazia reuniões de emergência em Brasília, acuado pela maior crise institucional do Judiciário, que tem atingido em cheio sua campanha.

Pesquisas de diferentes institutos mostram o presidente e o senador empatados nas simulações de segundo turno, mas com o oposicionista em trajetória ascendente e liderando numericamente em algumas projeções. Em termos eleitorais, Flávio Bolsonaro está sendo beneficiado pela tormenta enfrentada pelo Supremo, que obrigou Lula a reagir. Aconselhado a não prestar solidariedade a Moraes, que intermediou recentemente a reaproximação entre ele e o comandante do Congresso, senador Davi Alcolumbre, o presidente defendeu nas redes sociais a derrubada do sigilo do inquérito sobre o Banco Master e a investigação de todos os implicados no escândalo, “doa a quem doer”. Foi uma tentativa de agradar à opinião pública, que deseja ver o caso passado a limpo, e de não rifar o STF, com quem Lula manteve uma parceria estratégica durante o terceiro mandato. As próximas pesquisas revelarão se ele conseguiu conter a sangria eleitoral.

Levantamento BTG/Nexus divulgado na terça-feira 8 mostrou que, na simulação de segundo turno, Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente de Lula pela primeira vez desde o início oficial da campanha eleitoral: 46% a 45%. Os dois também estão empatados no quesito rejeição: 49% dizem que não votariam no presidente e 50% se recusam a votar no senador. Os números fizeram piscar a luz amarela no QG petista. Entre os estrategistas que integram a campanha de Lula, extinguiu-se qualquer esperança de liquidar a fatura no primeiro turno, já que a crise no Supremo e o desgaste na imagem de Alexandre de Moraes capturaram a agenda político-eleitoral, deixando em segundo plano o esforço do governo para divulgar suas realizações e surfar uma agenda positiva. Por obra de uma decisão do ministro André Mendonça, indicado para o STF por Jair Bolsonaro, Moraes assumiu o protagonismo momentâneo do escândalo do Master, tomando o papel de vilão que já foi de Flávio Bolsonaro, após ser revelado que o senador pediu 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro supostamente para financiar uma cinebiografia sobre o pai dele.

A Polícia Federal suspeita que os recursos efetivamente repassados pelo ex-banqueiro, cerca de 70 milhões de reais, possam ter sido usados para bancar despesas pessoais de integrantes da família Bolsonaro. Na manhã de quinta-feira 10, em operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF, a PF cumpriu 49 mandados de busca e apreensão no curso da investigação para apurar irregularidades nesse financiamento. Para rechaçar essa tese, o Zero Um divulgou recentemente uma perícia encomendada pela produtora do longa, segundo a qual o Dark Horse não contou com dinheiro público e teve o fundo Havengate como o maior investidor. O trabalho não foi suficiente para dirimir dúvidas que ainda pairam sobre o negócio. Cobrado sobre a polêmica, o candidato do PL tem tentado se esquivar, dizendo que apenas ajudou a captar dinheiro e que quaisquer dúvidas precisam ser dirigidas à produtora.

Enquanto se esforça para escapar do tema Dark Horse, o senador aproveita que Moraes está no centro do tablado para jogar o ministro e o presidente nas cordas, tratando-os como uma coisa só. É tudo o que Lula quer evitar. Meses atrás, o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira, procurou integrantes da Corte para apresentar pesquisas internas feitas pelo governo segundo as quais a imagem negativa dos juízes, em especial a de Moraes, respingava na campanha de Lula. A proximidade que o petista cultivou com o algoz do bolsonarismo começava a cobrar um preço nas medições de intenção de votos. Segundo interlocutores da Corte, Sidônio pediu que o Supremo tomasse atitudes específicas para reverter o desgaste, mas não explicou quais seriam.

Numa entrevista, o próprio Lula já havia declarado que Moraes deveria prestar contas de sua relação com o Master, para não deixar que manchassem a reputação do ministro. A ofensiva do governo não deu certo, como também não deu no caso do ministro Dias Toffoli, cuja família fechou transação milionária com a rede de negócios do Master. Se dependesse de Lula, Toffoli seria afastado do Supremo nem que fosse alegando a necessidade de uma licença médica. Não foi o que ocorreu. O ministro e seu colega Moraes continuam a dar expediente normalmente, mantendo vivo o desgaste do tribunal e, por tabela, do presidente. Quando os entrevistados da BTG/Nexus foram instados a citar os dois principais problemas do Brasil, a corrupção foi a questão mais lembrada na primeira resposta, com 18%. Na soma das duas respostas, teve 23%, salto de 4 pontos percentuais em relação à rodada anterior, ainda que atrás de segurança, violência e criminalidade (35%) e da saúde pública (31%). Não por acaso, o marqueteiro do PL, Duda Lima, continua dando destaque na propaganda do horário eleitoral às promessas de Flávio Bolsonaro para o combate às facções do tráfico e às milícias. O senador também intensificou o discurso contra o que chama de dupla a ser batida nas urnas: Moraes e Lula. “A família Bolsonaro está há anos no centro do conflito com o STF e, particularmente, com Alexandre de Moraes. Quando esse tema cresce na agenda pública, Flávio tende a ser um dos beneficiários dessa politização”, diz o cientista político Luis Carlos Burbano Zambrano.

A análise do caso de Moraes pelo plenário do Supremo, marcada para o próximo dia 15, pode render um fôlego extra ao dar embalo à retórica segundo a qual votar em Lula significa “perpetuar a promiscuidade” entre o Executivo e o Judiciário. Numa tentativa de sair das cordas, o presidente e o PT também passaram a atacar o que chamam de vazamentos seletivos das investigações. “Tem áudio, tem nota fiscal, tem repasse de milhões, tem vazamento sobre todo mundo, mas as provas sobre Flávio Bolsonaro continuam em segredo. Por que esse sigilo?”, diz o secretário nacional de comunicação do PT, Éden Valadares. A contraofensiva governista começou com uma postagem do próprio Lula, que disse: “É urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master”. Como a agenda positiva não foi capaz de levá-lo ao favoritismo, o presidente tenta, pelo menos, equilibrar a agenda negativa, que alimenta as rejeições de lado a lado e faz da corrida presidencial, até aqui, um jogo equilibrado e completamente indefinido.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012