O agro no vermelho: setor mais pujante da economia se vê ameaçado por crise de crédito

Trabalhadores em uma linha de produção de carne, vestidos com uniformes brancos e aventais azuis, manuseiam peças de carne em esteiras transportadoras azuis e prateadas, sob iluminação industrial

O agro brasileiro está em apuros. A afirmação causa estranheza diante de tudo o que se costuma ouvir sobre o setor: “locomotiva do país”, “motor da economia”, “o Brasil que dá certo” e “potência mundial”. Sim, as exportações do agronegócio quase quadruplicaram nos últimos vinte anos. Sim, a pujança da agricultura e da pecuária criou polos de riqueza longe das grandes cidades. Sim, o crescimento econômico nacional depende enormemente da força do campo. No segundo trimestre deste ano, por exemplo, o produto interno bruto (PIB) cresceu 0,5% em relação aos três meses anteriores, alavancado pela agropecuária, que avançou 2,8%, enquanto a indústria teve alta de apenas 0,1% e os serviços, 0,2%. Em paralelo a essa história de sucesso, contudo, ganha corpo uma realidade de estresse financeiro de produtores e empresas. A principal razão: os juros básicos que se mantêm acima de 10% anuais há quase cinco anos. Eles resultam em crédito caro e escasso, margens de lucro espremidas, adiamento de investimentos e dificuldade para renegociar dívidas.

A inadimplência recorde é o maior sintoma dessa situação complicada. A proporção de débitos vencidos há mais de 90 dias, entre produtores pessoa física, chegou a 9,7% em agosto, a mais alta da série histórica do Banco Central. O total de dívidas atrasadas passou de 38 bilhões de reais em abril de 2026, ante menos de 4 bilhões de reais em 2023. As empresas também estão sofrendo, e não apenas da porteira para dentro. Quando se considera o agronegócio como um todo, incluindo indústria, comércio e serviços ligados à atividade rural, descobre-se um quadro ainda mais preocupante.

O relatório “Agronegócio em Números”, divulgado no último dia 14 pelo Empresômetro, braço de inteligência de mercado do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), revela que o número de empresas do agro em recuperação judicial (RJ) cresceu 18,7% de 2023 a 2025, superando a marca de 1.000. O impacto em outros negócios e no mercado de trabalho é tremendo. No mesmo período, o total de funcionários nessas empresas caiu 12%, com a eliminação de mais de 12.000 postos. Além disso, o estudo identificou que cada companhia grande do agronegócio que entra em RJ empurra, em média, cinco empresas para o mesmo caminho e provoca o desaparecimento de outras 22 — em sua maioria, pequenos fornecedores. “Quando uma empresa desaparece, isso significa que deixou de comprar e vender. Ela pode até permanecer ativa na Receita Federal, mas está inoperante”, diz Carlos Pinto, diretor do IBPT e sócio da consultoria Empresômetro. Entre as grandes empresas do agronegócio que entraram em RJ neste ano, há desde frigoríficos, como o BMG Foods, com 3,5 bilhões de reais em débitos, até gigantes do hortifrúti, como o Grupo Trebeschi, maior produtor de tomates in natura do país, que pretende reestruturar metade de sua dívida de 1,3 bilhão de reais.

Como se chegou a esse ponto? A lógica da agricultura é a de financiar a compra de sementes, fertilizantes e tratores para recuperar o investimento e lucrar depois, com a venda da colheita. Os produtores estão acostumados com os riscos típicos da atividade. Mas, com uma taxa de juros alta e persistente, as margens de lucro ficam estreitas, e qualquer imprevisto pode tornar a dívida impagável. O crédito com juros subsidiados é escasso, representa menos de 20% dos mais de 500 bilhões de reais oferecidos pelo atual Plano Safra, o programa de financiamento federal para a agropecuária. Mesmo o que é oferecido a taxas de mercado prova-se insuficiente.

O volume de crédito rural concedido em julho e agosto deste ano para a próxima safra foi de 42 bilhões de reais, 30% menos que em 2025 e 54% menos que em 2023. Ao mesmo tempo, a proteção para riscos climáticos encolheu. Um documento divulgado no mês passado pela Associação Brasileira do Agronegócio aponta que a área cultivada coberta por seguro rural caiu de 16,3%, em 2021, para 3,3%, em 2025, enquanto as perdas superaram 100 bilhões de reais nos últimos três anos. O relatório atribui a retração aos cortes na subvenção do governo ao seguro rural. Sem indenização para compensar quebras da colheita, não se consegue pagar bancos e fornecedores e fica difícil obter dinheiro para o próximo plantio. Como diz Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul: “Vivemos uma crise de crédito muito grave, o que não combina com um setor cuja expansão depende de financiamento”. Assim, na prática, o país está maltratando sua galinha dos ovos de ouro.

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017