
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva provocou uma mudança profunda nas expectativas econômicas e acendeu um sinal de alerta para os próximos quatro anos. O primeiro Boletim Focus divulgado depois do segundo turno mostra investidores e economistas revisando simultaneamente suas projeções para inflação, juros, câmbio e crescimento. A combinação desenha um cenário de crédito caro, menor expansão da atividade e dificuldades para o governo cumprir suas promessas eleitorais sem pressionar ainda mais as contas públicas.
Para 2027, primeiro ano do novo mandato, a expectativa de inflação saltou de 4,34% para 4,76% em apenas uma semana. A projeção para a Selic subiu de 11,75% para 12,50%, enquanto a estimativa do dólar passou de 5,15 para 5,40 reais. Ao mesmo tempo, o crescimento esperado para o Produto Interno Bruto (PIB) recuou de 1,31% para 1,20%. Em outras palavras, o mercado passou a prever uma economia crescendo menos, mesmo com os preços e os juros em patamares mais elevados.
A deterioração não ficou restrita ao primeiro ano do governo. A inflação esperada para 2028 passou de 3,75% para 4%, enquanto a taxa básica de juros projetada para o fim daquele ano subiu de 10% para 11%. Para 2029, as estimativas também pioraram: o IPCA esperado chegou a 3,98%, e a Selic, a 10,25%. Os números indicam que os analistas não esperam um retorno rápido à meta central de inflação de 3%, embora ainda não permitam traçar uma previsão específica para 2030, último ano do mandato presidencial.
Por trás das revisões está a dificuldade de antecipar como Lula pretende conciliar a ampliação dos programas sociais e os compromissos assumidos na campanha com a estabilização da dívida pública. A forte desvalorização do real após a eleição acrescentou um risco inflacionário adicional, encarecendo importações e reduzindo o espaço para cortes de juros. O choque também chegou ao mercado de títulos públicos, elevando o custo de financiamento do governo e das empresas.
As projeções do Focus não representam um destino inevitável. Uma equipe econômica bem recebida, medidas fiscais consideradas consistentes e a estabilização do câmbio poderiam melhorar o quadro. Mas o recado inicial do mercado é inequívoco: a vitória eleitoral não eliminou os desafios econômicos que Lula terá pela frente. Ao contrário, tornou mais urgente a definição de como o presidente pretende financiar sua agenda e convencer os investidores de que o próximo mandato não será marcado por uma combinação persistente de juros elevados, inflação resistente e crescimento baixo.



