
VEJA Negócios
A primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva entregou ao governo um problema econômico e abriu uma nova frente de conflito político. Ao manter a Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (04), o Banco Central interrompeu uma sequência de cinco cortes consecutivos de juros, contrariando as expectativas que prevaleciam antes das eleições. A reação de setores do PT foi imediata. Para alguns dos principais aliados do presidente, a decisão representa uma interferência dos interesses do mercado financeiro na condução da política monetária.
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) foi um dos primeiros a reagir. Em publicação na rede social X, associou a interrupção dos cortes à vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro. Segundo o parlamentar, até a sexta-feira anterior às eleições, investidores trabalhavam com a possibilidade de uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic. Depois da derrota de Bolsonaro, as expectativas mudaram. “O povo vota, mas, quem manda são os barões da Faria Lima? Vergonha!”, escreveu Lindbergh, atribuindo ao mercado financeiro a responsabilidade pela mudança de cenário.
A ofensiva já vinha sendo preparada antes da reunião. Na última segunda-feira, a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-presidente do partido, acusou o mercado financeiro de ter apoiado a candidatura de Flávio Bolsonaro e criticou a reação dos investidores ao resultado eleitoral. O deputado Zeca Dirceu (PT-PR) também se manifestou contra os juros elevados, embora tenha reconhecido a necessidade de equilíbrio fiscal. Defendeu que o ajuste das contas públicas não recaia sobre a população mais pobre e afirmou que os interesses daqueles que lucram com a manutenção da Selic elevada não podem determinar a política econômica.
As críticas ganharam novos participantes depois do anúncio do Copom. O ex-presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) Edegar Pretto acusou o Banco Central de privilegiar o sistema financeiro em detrimento da atividade econômica. Ricardo Cappelli, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e integrante do PSB, foi além. Afirmou que o mercado teria criado um ambiente de temor artificial em torno das propostas econômicas discutidas depois da eleição e questionou a independência da autoridade monetária. Para Cappelli, não haveria justificativa técnica para a interrupção dos cortes.
A reação expõe uma contradição delicada para o governo. O Banco Central que agora recebe críticas de aliados de Lula é presidido por Gabriel Galípolo, indicado pelo próprio petista em 2024 e empossado no início de 2025. A decisão desta quarta-feira foi unânime, inclusive com o voto de Galípolo. O presidente da autoridade monetária, portanto, terá de administrar a pressão de integrantes da mesma coalizão política que apoiou sua chegada ao comando da instituição. Ao mesmo tempo, a direção nacional do PT procura evitar que o debate sobre os juros seja confundido com uma mudança já definida de orientação econômica. Antes da reunião, o presidente da legenda, Edinho Silva, havia criticado as especulações sobre uma eventual guinada heterodoxa e ressaltado que cabia ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, falar oficialmente pelo governo sobre política econômica.
O comunicado do Copom oferece uma explicação diferente daquela apresentada pelos parlamentares governistas. A autoridade monetária elevou sua projeção de inflação para 2027 de 3,9% para 4,7%, acima do teto de tolerância da meta, de 4,5%. Para 2026, a estimativa passou de 5,2% para 5,6%. O colegiado reconheceu uma desaceleração mais acentuada da economia, mas apontou a deterioração das expectativas inflacionárias, a volatilidade cambial e o aumento das incertezas como razões para preservar os juros. A decisão tampouco trouxe uma indicação de quando os cortes poderão ser retomados.
O descontentamento não ficou restrito à esquerda. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considerou a manutenção dos juros excessivamente conservadora e defendeu a retomada das reduções em dezembro. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também criticou o custo do crédito, enquanto a Força Sindical classificou a interrupção do ciclo de cortes como uma decisão prejudicial aos trabalhadores. A convergência nas críticas, porém, não significa concordância sobre suas causas. Entre representantes do setor empresarial, há também quem atribua a permanência dos juros elevados à falta de credibilidade da política fiscal.
É nesse ambiente que Lula terá de escolher seu próximo ministro da Fazenda. O sucessor de Durigan herdará uma economia em desaceleração, expectativas de inflação deterioradas e uma base política que cobra juros menores. Terá, ainda, a tarefa de apresentar uma orientação fiscal capaz de reduzir a percepção de risco e permitir a retomada do ciclo de flexibilização monetária. O desafio não será apenas convencer os investidores. Será também administrar a pressão de setores do próprio PT por uma mudança mais profunda na condução da economia. Ao interromper os cortes sem sinalizar quando poderá retomá-los, o Banco Central deixou claro que não pretende antecipar essa aposta.



