O Rio Grande do Sul é um case de como Lula sacrifica o PT em nome do ‘projeto maior’: ele

https://www.estadao.com.br/resizer/v2/IS2YUBTV3FG4LDJFE76HH2GLUM.jpg?quality=80&auth=31ddcf9eed2ba69867066ab449bab74629eac456590b7f2b9762f52d845ce583&width=347&height=195&smart=true

Por Eliane Cantanhêde/Estadão

Às vésperas de completar 81 anos e disputar um quarto e último mandato, o presidente Lula mantém sua determinação de impedir o surgimento de novos líderes à esquerda, desestimular a construção de um sucessor para o pós-Lula e sacrificar sucessivamente o PT em favor do “projeto maior”: ele.

O novo alvo de Lula é o PT do Rio Grande do Sul, que teve os governadores Olívio Dutra e Tarso Genro e fica sem candidato próprio ao governo do Estado pela primeira vez, desde 1982, quando houve a primeira eleição direta para governador após 1965. Lula quis e o partido foi obrigado a engolir o nome, ou melhor, o sobrenome da ex-deputada Juliana Brizola, do PDT.

A pressão “de cima”, assumida pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva, com direito a ameaça de intervenção, foi insuportável, como aconteceu ao longo das eleições, por exemplo, no Rio de Janeiro, em Minas, Pernambuco e Maranhão, onde o PT, depois de ceder a primeira vez, nunca mais se recuperou e está na dependência de aliados, não mais só da esquerda.

Como o PT, desde sua criação, em 1980, priorizou sua hegemonia, confrontando ou atraindo os demais partidos de esquerda para se contentarem em ser seus satélites, o resultado, hoje, é que PT fraco corresponde a toda a esquerda fraca. Como contrapartida, a direita está forte e dona de várias siglas e nomes à Presidência.

Sem candidato próprio aos governos do Rio e de Minas, Lula empurrou Fernando Haddad mais uma vez para o sacrifício em São Paulo, berço do PT e coração do Brasil. Haddad surpreendeu positivamente na primeira rodada de pesquisas com seu nome. Isso, porém, não anula a percepção de que Tarcísio de Freitas, que venceu o petista na eleição passada para o Bandeirantes, é favorito.

Assim, Haddad fica refém de Lula duplamente. Primeiro, cedeu à convocação para uma disputa duríssima. Segundo, depende diretamente do desempenho de Lula, não apenas no Estado, mas no País, para sonhar com a vitória em outubro.

Isso, porém, não é tudo. Além de jogado numa pedreira contra Tarcísio, Haddad ainda corre o risco de virar reserva de Lula, caso não haja reversão nas pesquisas e a candidatura à reeleição for por terra. Nesse caso, Lula estará se esquivando da disputa e praticamente transferindo a derrota para seu ex-ministro da Fazenda, o nome mais razoável, quase único, para tocar seu legado, se o PT deixasse, o que soa muito improvável.

Logo, a eleição do RS, estado muito politizado e quinto colégio eleitoral do País, é um “case” do que foi, do que é e do que poderá ser o PT, o partido que nasceu como dos trabalhadores, da academia, da Igreja, dos jovens, da ética na política e da democracia, mas virou o de um dono só.

Do grande Pepe Mujica: “Lula está perto dos 80 anos e não tem substituto. Essa é a desgraça do Brasil”. Nem tanto, mas um País com centro, direita, esquerda e diferentes propostas, como o Uruguai, tem mais chance de ser feliz.