
O transporte rodoviário interestadual regular perdeu cerca de 6,5 milhões de passageiros em apenas dois anos, justamente no período em que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) tentou colocar em prática, sem sucesso, um novo modelo de abertura do mercado.
Em 2023, os ônibus regulares transportaram aproximadamente 43,2 milhões de passageiros entre cidades de diferentes estados. O volume caiu para 40,7 milhões em 2024 e chegou a 36,7 milhões em 2025. A retração acumulada foi de quase 15%, segundo dados do Anuário Estatístico da ANTT.
O faturamento das empresas também encolheu, mas em ritmo bem menor. A receita do setor passou de R$ 6,7 bilhões em 2023 para R$ 6,15 bilhões em 2025, uma queda de cerca de 8%. Ou seja: mesmo com a perda acelerada de passageiros, a arrecadação das operadoras mostrou maior resistência.
O recuo da demanda ocorre enquanto permanece emperrada a primeira grande janela criada para permitir a entrada de empresas em ligações desatendidas ou exploradas por uma única transportadora. Aberto em setembro de 2024, o processo ainda não foi concluído e voltou a ser suspenso no início deste mês, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Desde 2024, o Ministério Público Federal contesta pontos do marco regulatório editado pela ANTT em fevereiro daquele ano. Na avaliação do órgão, as regras criam barreiras à entrada de novas empresas e ajudam a preservar a posição dos grandes grupos que já dominam o transporte interestadual.
A abertura, além disso, foi limitada. As empresas só puderam solicitar autorização para operar rotas sem atendimento ou controladas por uma única transportadora. Os mercados que já contavam com dois ou mais concorrentes permaneceram fechados. Desde então, a seleção acumula mudanças de prazo, reavaliações administrativas e intervenções judiciais.
Apesar dos entraves, os números preliminares mostram que não falta interesse empresarial. A ANTT recebeu 47.291 solicitações válidas: 38.379 para mercados ainda não atendidos e outras 8.912 para ligações operadas por apenas uma empresa. A demanda das transportadoras existe. O que continua sem sair do lugar é a abertura efetiva do mercado.



