
A areia ainda estava úmida da chuva da manhã da quinta-feira quando os primeiros vendedores ambulantes começaram a ocupar a orla de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. O vento fresco aliviava por instantes, mas o sol logo voltaria a castigar. Com carrinhos pesados, pés afundando na areia fofa, camisas UV coladas ao corpo e a incerteza diária das vendas, os ambulantes se moviam com um sorriso que escondia o cansaço e resistência.
A rotina de quem vive das praias depende do clima, do fluxo de banhistas e da própria disposição física. Vender nestes locais significa enfrentar dias de calor extremo, de chuva contínua e areia fofa. O trabalho não para. O corpo, às vezes, sim. Cada um dos ambulantes que circulam pela orla carrega sua própria história, quase sempre marcada por início precoce, falta de oportunidades formais e a busca contínua por estabilidade. Mas nenhum deles fala em desistir.
Davi Silva, de 43 anos, empurra a carroça de queijo na brasa pela extensão da praia há duas décadas. Atento, com passos firmes apesar das dores no joelho, se mantém sempre de olho nos possíveis clientes. A pressa faz parte da profissão. O tempo, o fluxo e o sol importam. A trajetória na praia não foi linear e Davi começou aos 9 anos, como vendedor de picolé.
Já equipado com a carroça com dezenas de queijos, carvão e fósforo, ele sai quase todos os dias de Brasília Teimosa para trabalhar em Boa Viagem.
“Na época eu vim pra cá porque o desemprego estava grande e a opção que apareceu foi trabalhar na praia. Tenho uma filha agora, novinha, um mês só. A gente tem que ralar mais pra não deixar faltar nada pra ela. Eu acho que vale a pena trabalhar aqui, sim. Faz dez anos que eu não trabalho de carteira assinada. Optei por ficar aqui na praia. Pra mim é até melhor. O clima é outro, é ventilado, chega aquele vento bom”, relata.
Por conta das longas caminhadas na areia desnivelada, desenvolveu um problema de saúde no joelho e passou por cirurgia este ano. Sem tempo para esperar a recuperação total, voltou à praia para trabalhar.
“A areia fofa desgasta demais. Eu tive um rompimento na cartilagem do joelho esquerdo há três anos. Fiz a cirurgia em maio, mas não resolveu e não fiquei 100%. Hoje dói muito ainda e o pé cansa só de andar. Mesmo assim, no mês de agosto eu já tava de volta aqui na praia”, conta.
A poucos metros, no mesmo trecho, está o Mago do Abacaxi, conhecido por muitos frequentadores. Ele fala, empurra o carrinho e vende sorrindo, como se o sorriso fosse também uma forma de resistir. Aos 58 anos, já viveu o interior, as usinas e a vida dura do corte de cana, até fixar os pés na areia.
Para ele não há folga em nenhum dia da semana. Ainda assim, às vezes o abacaxi sobra, bem como as dores do corpo extenuado. “As dificuldades são muitas. À noite, quando chego em casa, está doendo joelho, coluna, tudo. É puxando peso, é areia fofa e a gente chega todo quebrado. Mas nunca precisei ir para médico nenhum”, destaca.
“A rotina para pegar o abacaxi é pesada também. Eu vou pro Ceasa três vezes por semana. E todo dia eu boto meu abacaxi em casa. Todo dia eu carrego, descarrego, lavo meu carrinho. É assim, todo dia. E quando chega a baixa temporada com muita chuva eu venho do mesmo jeito. Venho na chuva, venho no sol. A gente não pode parar”, complementa.
Ele está entre os cerca de mil homens e mulheres que acordam ainda de madrugada, quando a cidade dorme, para preparar a carroça e os produtos de venda. Cada um tem história, investimento, medo de não vender e coragem de tentar outra vez.
O primeiro desafio é sempre o transporte e quem não tem bicicleta vai a pé, quem não tem dinheiro para o ônibus depende da boa vontade de um vizinho ou de uma carona improvável. No caminho, já começam as contas do dia, quanto gastaram, o valor que precisam vender e quanto falta para fechar a semana.
Quando pisam na areia, o trabalho começa de verdade. O calor não espera, a areia esquenta cedo e cada passada parece mais pesada que a anterior. O isopor machuca o ombro, o carrinho emperra nos trechos mais fofos e o sol continua firme.
Muitos vendedores carregam o sonho de não depender de ninguém, de não pesar na família, de comprar suas próprias coisas, de contribuir com a renda de casa. E, no meio do vai e vem da praia, descobrem valores que muitos adultos demoram a entender, como a responsabilidade. Para Denilson Patrício da Costa, de 28 anos, cada caldinho vendido é uma conquista. Cada “não” recebido é uma incentivo para continuar tentando.
Ele destaca que começou aos 14 anos ajudando o irmão e que vender na praia virou alternativa e sustento. Para Denilson, a independência não é luxo e sim uma necessidade. É uma forma de afirmar que, apesar das adversidades, há uma maneira de escrever o próprio caminho.
Diariamente, ele se desloca de ônibus do bairro Curado, a 13 quilômetros da Praia de Boa Viagem, para vender o caldinho que o irmão prepara. “Minha referência foi meu irmão. Ele já vendia aqui e começou a trabalhar sozinho e depois eu me interessei e comecei também. A gente faz o preparo à noite e de manhã termina para poder trazer para praia”, lembra.
O trabalho começa logo cedo e só termina ao final da tarde. Dia de folga é apenas um. “Eu acordo às 6h, faço meu café e saio de casa às 7h. E só saio da praia da entre às 15h e 16h. Trabalho de segunda, e minha folga é na quarta. Trabalho sozinho. O carrinho eu deixo no depósito, porque não dá pra trazer no ônibus. A gente paga 45 reais por semana. É caro, né? Mas precisa. Tem que pagar para manter”, detalha.
Apesar da rotina cansativa, Denilson não pensa em mudar de profissão devido ao peso da liberdade. “É um trabalho puxado, mas compensa. O que eu mais gosto é a rotina, essa independência. A melhor coisa é não estar preso, não estar preso a um trabalho de CLT”.





