
VEJA
Tem sido bastante tortuoso o caminho do centro político na tentativa de romper a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). A trajetória começou congestionada, o que já indicava uma dificuldade de unificação. Aos poucos, seja pela falta de consenso, seja pelos impasses que foram se apresentando, vários nomes abandonaram a pretensão, como o apresentador Luciano Huck e os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro. O último a deixar o barco foi o ex-governador paulista João Doria (PSDB). Agora, as atenções desse grupo naquela que pode ser a derradeira tentativa de vencer os obstáculos para viabilizar a terceira via recaem sobre uma candidata que tem 2% das intenções de voto e é estreante em eleições presidenciais: a senadora Simone Tebet (MDB-MS), ungida nesta semana pela cúpula de seu partido e pelo Cidadania para ser o nome da coligação na disputa ao Palácio do Planalto.
Embora esteja cercada ainda por enorme ceticismo dado o grau de desconhecimento de seu nome entre a população e não conte com apoio de influentes caciques do MDB, ela se esforça para dar demonstrações de confiança. Em seu primeiro pronunciamento como pré-candidata, na quarta 25, disse não ter dúvida de que terá o seu nome ratificado também pelo PSDB, que deve ficar com a vaga de vice. “Estou preparada. Vamos para o segundo turno e o centro democrático vai ganhar as eleições”, declarou. Na ocasião, procurou também minimizar a sua posição nas pesquisas: “Eu era risco, virei 1% e agora sou 2%”.
Arroubos otimistas à parte, a pouco menos de cinco meses do pleito, a candidatura só vai decolar caso consiga uma ascensão fulminante daqui para a frente. Apesar das dúvidas a respeito da viabilidade da empreitada, a alternativa Tebet começou a ganhar força definitiva nos últimos dias, em meio à pressão de grande parte do tucanato para formar uma frente presidencial única com MDB e Cidadania. Doria era visto como um grande entrave para o acordo devido à sua insistência em encabeçar a chapa. O ex-governador paulista sempre pontuou melhor nas pesquisas, marcando em algumas sondagens mais que o dobro das intenções de voto em relação a Tebet, mas ainda muito abaixo do esperado, além de carregar uma das maiores rejeições entre os presidenciáveis. Doria fracassou também na tentativa de unificar o partido após o racha ocorrido com sua vitória nas tumultuadas prévias do PSDB.
No dia em que fez o anúncio de sua retirada, Doria tinha um encontro com caciques do PSDB, dos quais ouviria argumentos contrários à sua candidatura (e a favor da opção Tebet), baseados em grande parte na alta rejeição. No caso de Tebet, a tese é a de que, por ser muito mais desconhecida, não carrega na saída a mesma carga de antipatia junto ao eleitorado, o que indicaria um potencial para ir além de Doria. Ao chegar para a reunião em São Paulo, a comitiva do PSDB recebeu a informação de que a desistência de Doria já estava decidida. Ele começou a pensar seriamente na renúncia na semana passada e no domingo 22 tomou a decisão após um encontro decisivo com Rodrigo Garcia, vice de Doria em 2018 e hoje governador.
Garcia já vinha deixando claro que a prioridade dele no momento é cuidar de sua própria campanha de reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, empreitada que enfrenta dificuldades devido à tentativa de nacionalização das campanhas estaduais, de forma a repetir com apadrinhados em nível regional o confronto entre Lula e Bolsonaro. Apesar de ter migrado para o PSDB a convite de Doria para virar o candidato dele à sucessão em São Paulo, Garcia tenta mostrar na campanha estadual que não é uma “cria” do ex-governador e chegou a criticar publicamente a hipótese aventada por Doria de procurar a Justiça para tentar se manter como presidenciável do PSDB. A despeito da enorme pressão para a renúncia, a intenção do ex-governador em resistir deixou dúvidas até os últimos minutos sobre o desfecho da confusão. “Ninguém acreditava que ele abriria mão da candidatura”, afirma o líder do PSDB no Senado, Izalci Lucas (DF).
A saída de Doria, contudo, não encerra a discussão no partido, que adiou para a quinta 2 a reunião para discutir o apoio a Tebet. Parte do tucanato, liderada pelo deputado Aécio Neves (MG) e que boicotou o tempo inteiro a intenção do ex-governador paulista, fala ainda em lançar uma candidatura própria, sendo que os nomes mais citados são os do senador Tasso Jereissati (CE) e do ex-governador gaúcho Eduardo Leite — que perdeu as prévias para Doria, mas ainda sonha em voltar ao páreo. Na Executiva Nacional, no entanto, a maioria quer embarcar na canoa de Tebet e indicar o vice da chapa. A ala resistente defende a ideia de que, para isso, seriam necessários um desempenho melhor nas pesquisas e acordos para solucionar os palanques nos estados em que as duas siglas têm pré-candidatos.
Outro problema é o prazo. A direção pressiona para que o assunto seja encerrado logo, mas um grupo tenta adiar a decisão até a convenção, entre julho e agosto. Para alguns que defendem candidatura própria, porém, será difícil o PSDB não apoiar Tebet. “Há consciência de que muito se evoluiu com a Simone e que, portanto, não é tão simples alterar o rumo desse entendimento”, diz o deputado Paulo Abi-Ackel (MG), um dos maiores aliados de Aécio Neves. Se isso ocorrer, será a primeira vez que o PSDB será vice de um presidenciável do MDB, partido do qual nasceu, em 1988, empunhando as bandeiras da social-democracia e da ética na política. Na única vez que estiveram juntos, em 2002, o PSDB encabeçava a chapa, com José Serra, tendo a deputada Rita Camata (ES) como vice. Também será a primeira vez que o PSDB não terá um candidato próprio ao Planalto.
Para os mais entusiasmados com a alternativa Tebet, ela é uma candidata que tem o perfil para a difícil missão de romper a polarização. A senadora se encaixa nos quatro critérios apontados em estudos internos como capazes de atrair eleitores indecisos ou dispostos a mudar de voto. É uma cara nova, ao mesmo tempo em que tem uma trajetória política (ou seja, não é uma outsider), tem sensibilidade social (ideia que será associada ao fato de ser mulher) e viveu dificuldades que podem causar empatia. No caso, a narrativa é que ela enfrentou o machismo do mundo político e ocupou cargos importantes com pioneirismo (foi a primeira mulher a presidir a poderosa CCJ do Senado, por exemplo). “Ela se encaixa nessa moldura de valores subjetivos”, diz o publicitário da campanha Felipe Soutello, marqueteiro da senadora. Tebet também é vista como alguém que pode manter unido o MDB, que tem alas propensas a apoiar Bolsonaro ou Lula. Ela ajuda ainda o partido a cumprir a regra que obriga a destinar 30% do Fundo Eleitoral para campanhas femininas. Por fim, mesmo que tenha 5% dos votos, já será o suficiente para forçar Lula e Bolsonaro a negociar o apoio do MDB em um segundo turno.



