
VEJA
Pego de surpresa pela prisão cinematográfica do ditador venezuelano Nicolás Maduro e da esposa dele por forças especiais dos Estados Unidos, o presidente Lula fez sua primeira manifestação oficial sobre o tema cerca de sete horas depois da operação, procurando se equilibrar entre a condenação da ação militar contra um aliado histórico do PT e a tentativa de manter intacta a propalada “química” que ele teria com Donald Trump. Em texto publicado nas redes sociais, o petista disse que a ofensiva tinha ultrapassado uma linha inaceitável e lembrava os piores momentos de interferência política na América Latina, mas não citou nominalmente nem os Estados Unidos nem Trump, um antigo adversário agora tratado como parceiro dileto. Medindo as palavras, Lula também se referiu à extração de Maduro como uma “captura”, e não como um “sequestro”, definição que só seria usada dois dias depois pela diplomacia brasileira durante uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA). A cautela do presidente brasileiro é compreensível.
Desde seu primeiro mandato, Lula mantém relações umbilicais com a ditadura de esquerda que comanda a Venezuela. A oposição sempre acusou o petista, tão zeloso na defesa da democracia no Brasil, de fechar os olhos para a tirania e a crise humanitária no país vizinho por uma questão de afinidade ideológica. Sob a batuta de Jair Bolsonaro, a direita mais radical transformou a proximidade do PT com o regime chavista em munição para a disputa nas redes sociais. Essa estratégia voltou a ganhar força com o cerco a Maduro e levou os principais pré-candidatos da oposição à Presidência a elogiarem a intervenção americana, com o objetivo, claro, de desgastar Lula. Nome preferido do Centrão e de setores da elite econômica para a corrida ao Palácio do Planalto, o governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, declarou que Lula falhou na tentativa de mediar um acordo entre EUA e Venezuela, celebrou o fim “de um ciclo ruim” no país vizinho e disse esperar que a queda de Maduro seja o prenúncio da derrocada da esquerda nas eleições deste ano no Brasil.
Já o senador Flávio Bolsonaro, escolhido pelo pai para concorrer à Presidência, afirmou ter certeza de que Maduro vai delatar Lula em busca de um acordo com a Justiça americana para reduzir sua pena e a de sua esposa, detalhando negociatas entre o petismo e o chavismo. No roteiro sonhado pelo filho mais velho do capitão, isso levaria Trump a romper com Lula e adotar medidas que impediriam ou dificultariam sua reeleição. Também presidenciáveis, os governadores Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás, e Ratinho Junior (PSD), do Paraná, engrossaram o coro e celebraram, sem ressalvas, a ação americana contra Maduro. Na direita, há a expectativa de que Trump interfira no próximo processo eleitoral brasileiro para derrotar a esquerda, como ele fez, por exemplo, em Honduras e na Argentina. Presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o deputado Filipe Barros (PL-PR) diz que com a prisão de Maduro e a configuração que o TSE terá durante o processo eleitoral, com os ministros Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados por Bolsonaro, como presidente e vice da Corte eleitoral, a política internacional de Lula será um dos principais assuntos a serem debatidos no colegiado. “O mesmo acontecerá na campanha”, afirma.
Desde a redemocratização, questões internacionais não tiveram peso relevante em disputas presidenciais no Brasil, mas os próprios governistas reconhecem que o fator Trump pode mudar essa história. Daí, o cuidado para não melindrá-lo. O desafio de Lula é se equilibrar entre os dois senhores, o aliado histórico e o aliado improvável. Para o cientista político Murilo Medeiros, professor da Universidade de Brasília (UnB), o dilema entre o tom institucional da diplomacia brasileira e as posições mais ideológicas do PT pode atrapalhar a estratégia de evitar o confronto com Trump, além de representar o risco de, lá na frente, o presidente dos EUA tomar partido na eleição brasileira a fim de aumentar a influência da direita na América do Sul. “A relação histórica de Lula com Maduro será explorada pela oposição, enquadrando, também, a inépcia da democracia brasileira em conduzir uma transição democrática no país vizinho e a conivência do PT com regimes autoritários de esquerda”, diz Medeiros.
A ligação umbilical de Lula e do PT com o regime autoritário da Venezuela tem mais de duas décadas. Em governos do partido, houve financiamento do BNDES para a obra do metrô de Caracas, transformado em uma dívida com o Brasil que hoje se aproxima de 2 bilhões de dólares, e a parceria da Petrobras com a PDVSA, a petrolífera venezuelana, para a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, projeto esquadrinhado pela Operação Lava-Jato. No campo social, Maduro assinou em março um decreto dando ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) 180.000 hectares de terra. Foi uma forma de fortalecer laços que começaram a ser costurados quando o MST enviou à Venezuela, então sob o comando de Hugo Chávez, padrinho político de Maduro, alguns militantes para implantar projetos de agroecologia. Petistas e chavistas também compartilharam marqueteiros estrelados em campanhas eleitorais, inclusive João Santana, que admitiu ter sido pago com recursos desviados de contratos públicos. Na seara política, Lula nunca deixou de exaltar a suposta força da democracia venezuelana, que, na prática, não existia e tinha dado lugar a perseguição política e eleições fraudadas.
Essa solidariedade não foi abalada pela intervenção de Trump. Cerca de 48 horas depois da captura de Maduro, o atual presidente do PT, Edinho Silva, ligou para Delcy Rodríguez, recém-empossada na cadeira presidencial do país vizinho, para prestar solidariedade a ela e ao povo venezuelano, que teria sido “vítima de uma operação violenta”. Secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares afirma duvidar que a oposição consiga manter o assunto em voga até outubro. “Estão cuspindo para cima e vai cair na cara deles”, provoca, apostando que Lula utilizará o caso para desfraldar mais uma vez a bandeira da defesa da soberania nacional, assim como fez quando Washington impôs o tarifaço e sanções contra autoridades brasileiras. Valadares ainda minimiza a ligação de governos do PT com regimes autoritários de esquerda, ressaltando que o presidente também busca parcerias comerciais com o Paraguai, a União Europeia e até mesmo com os Estados Unidos.
Ainda é cedo para saber a dimensão ou se haverá algum impacto eleitoral. Diante da dúvida, a diplomacia brasileira tem agido com cautela. Como na manifestação inicial de Lula, comunicados e discursos oficiais até aqui evitaram identificar claramente os EUA como autores da intervenção militar na Venezuela ou citar o nome de Donald Trump. “Nossa linha é não fulanizar porque não é uma questão venezuelana, sul-americana ou latino-americana. É uma questão global”, diz um diplomata envolvido no caso. Por enquanto, a atuação está mais alinhada à excelência profissional da chancelaria brasileira, comandada por Mauro Vieira, do que ao antiamericanismo notório de Celso Amorim, o assessor especial para assuntos internacionais de Lula. Faz todo o sentido, já que Amorim faz o jogo do chavismo, enquanto Vieira se esforça para manter de pé o diálogo com o governo americano.
De olho num novo mandato, Lula não tem como esconder a parceria com ditadores amigos, mas não pode correr o risco de enfrentar, além dos adversários domésticos, Donald Trump. No dia da operação que prendeu Maduro, o presidente estava no Rio de Janeiro, isolado numa base militar. Ao contrário de outras situações parecidas, não interrompeu o descanso, optou pela discrição e só retornou a Brasília quatro dias depois. Experiente, o petista sabe que mais importante do que defender amigos é não cultivar novos e poderosos inimigos.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977



