
Valor Econômico
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, progressivamente afasta-se do PSDB e se aproxima do PSD. A recente ausência dela no evento do relançamento do PSDB em Brasília, na semana passada, e a entrada de integrantes do PSD em seu governo fizeram crescer as especulações de uma migração de partido.
O PSD tem a expectativa, em um primeiro momento, de receber no Estado parte dos aliados da governadora interessados em disputar a eleição municipal do próximo ano. A sigla é a única que está no governo da tucana e ao mesmo tempo apoia Lula no plano federal.
No evento do PSDB em Brasília na quinta-feira (24), comandado pelo presidente nacional da sigla, o governador gaúcho Eduardo Leite, o tom de oposição ao governo federal predominou em todos os discursos. Raquel Lyra estava em Brasília na véspera. Alegou compromissos no Recife e não ficou para o evento. Mandou um vídeo protocolar, em que evitou a questão nacional.
Dentro do PSDB, o afastamento da governadora da estratégia nacional da sigla é visto como natural e a sua saída do partido a médio prazo é considerada uma tendência. Procurado, Eduardo Leite não quis comentar. Interlocutores do gaúcho afirmam que as circunstâncias regionais tornam difícil à governadora permanecer em uma sigla de oposição ao governo federal.
No dia 17 a governadora empossou Cacau de Paula, filha do ministro da Pesca André de Paula, do PSD, como secretária da Cultura. A sigla também se sentiu contemplada com a indicação do técnico Alex Machado Campos para a presidência da Compesa, a estatal de saneamento. O partido de forma quase simultânea deixou de compor o governo do prefeito do Recife, João Campos (PSB).
É sobre a base de prefeituras do PSB que a governadora de Pernambuco e seu grupo político pretendem avançar em 2024. O PSB governou Pernambuco durante 16 anos. O partido encolheu na última eleição e perdeu recursos do fundo partidário. O problema para Raquel Lyra é que o PSDB encolheu ainda mais.
Hoje o PSDB conta com apenas R$ 37 milhões de fundo partidário. É o 12º partido em grandeza de recursos. Em Pernambuco tem somente cinco prefeituras, entre elas Caruaru, terra da governadora. Já o PSD tem 15 prefeituras em Pernambuco e dispõe de R$ 89,1 milhões de fundo partidário.
A postura oposicionista do PSDB, que no ato de Brasília reafirmou sua intenção de construir uma candidatura presidencial de terceira via entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro, também causa incômodo para os aliados de Raquel Lyra. Lula teve 65,2% dos votos válidos no primeiro turno em Pernambuco. Integrantes do governo federal afirmam que Lula tem feito sucessivos gestos em relação a Raquel Lyra, que se traduzem concretamente em apoio financeiro para sua administração. Dos nove eixos do PAC 3 anunciados recentemente pelo governo federal Pernambuco é contemplado em oito.
Em um primeiro momento, o que se espera é que a governadora direcione prefeitos interessados em ingressar na sua base de apoio a entrarem no PSD. Um bom resultado na eleição municipal cacifa Raquel Lyra para montar uma aliança em torno de sua possível reeleição em 2026, já dentro da órbita do lulismo. Por enquanto seu principal adversário potencial é João Campos, caso se reeleja prefeito do Recife. No quadro partidário atual, Campos poderia isolar a governadora. O PT tradicionalmente apoia o PSB em Pernambuco quando os dois partidos estão unidos no cenário nacional. Procurada por meio de sua assessoria de imprensa, a governadora não atendeu aos pedidos de entrevista.



