PERNINHA EM NOVA VERSÃO

Rússia e Ucrânia: mais de cem dias de guerra

Por Danizete Siqueira de Lima

No último dia 03 de junho a guerra entre os dois países, ex-aliados, completou o seu centésimo dia de inferno vivido pelas duas partes, sem a perspectiva de um fim. Se conseguir conquistar o Donbass, não está clara onde a ganância russa vai parar. É possível que o Kremlin vá atrás do resto da costa do Mar Negro, deixando a Ucrânia sem litoral. Enquanto faz isso, a Rússia pode bombardear a infraestrutura ucraniana em outras regiões. Em caso de muitas conquistas, a derrocada do estado ucraniano pode ser uma meta.

Repetidas vezes Kiev mostrou-se indisposta a ceder territórios. Na penúltima terça-feira, em mensagem ao Conselho Europeu (órgão que reúne líderes da União Europeia), o presidente do país, Volodymyr Zelensky, reiterou essa mensagem e disse que “não pode haver concessões à custa de nossa integridade territorial”.

Zelensky, contudo, pode ser obrigado a ceder. A guerra provoca distúrbios na economia mundial, e potências ocidentais enfrentam a maior inflação — já alta após a pandemia — em décadas e impactos em suas cadeias de suprimento. Uma crise alimentar global em grande escala também se avizinha, em função dos bloqueios dos portos ucranianos.

Preocupações como essas levam cada vez mais vozes no Ocidente a sugerirem que algum tipo de compromisso entre as partes é necessário, e estas vozes podem se acentuar. O presidente da França, Emmanuel Macron, advertiu contra “humilhar” qualquer um dos lados. Já o premier da Itália, Mario Draghi, disse que “um cessar-fogo deve ser atingido o mais rapidamente possível”.

Já Henry Kissinger, o ex-secretário de Estado americano, de 99 anos, afirmou no Fórum Econômico Mundial de Davos que as negociações devem começar dentro de dois meses para evitar “transtornos e tensões que não serão facilmente superados”. Kissinger disse que Kiev deveria concordar com “um retorno ao status quo ante”, uma restauração das fronteiras da Ucrânia a antes da guerra. Isso significaria desistir da Península da Crimeia e de partes do Donbass.

Essa parece ser a meta oficial ucraniana no momento, em um retorno às posições de até o final de março, quando as negociações estavam mais aquecidas. O aumento da ajuda do Ocidente, o bom desempenho do seu Exército e fracassos das forças russas levaram Kiev a aumentar sua ambição. No início de maio, Zelensky afirmou não estar disposto a ceder um centímetro do seu território, “incluindo a Crimeia”. Agora, já disse novamente que não pretende recuperar militarmente as zonas que perdeu em 2014: ¨Se seguirmos esse caminho, vamos perder centenas de milhares de vidas do nosso lado, disse no domingo 29/05¨.

Vitória ucraniana  

Para voltar às fronteiras de fevereiro, a Ucrânia precisa de vitórias. Isto poderia ser possível com táticas competentes que dessem sequência às empregadas na defesa de Kiev e com uma contraofensiva exitosa no Leste. Remessas ocidentais de armas avançadas e o compartilhamento de inteligência teriam importante papel nesse cenário.

Vladimir Putin

Como o presidente da Rússia se transformou de estadista em tirano em 22 anos: Em um artigo publicado nesta semana, Mathew Burrows e Robert Manning, do instituto americano Atlantic Council, dizem que, para Vladimir Putin ceder, ele precisaria “enfrentar um descontentamento doméstico crescente, com uma economia em colapso e um Exército exausto e irritado com repetidos fracassos”.

Ainda há outros cenários menos prováveis, como a recuperação da Crimeia e de todo o Donbass pela Ucrânia. Isso é pouco plausível, porque não só dependeria de um extraordinário desempenho das forças ucranianas, como também de uma humilhação russa. A maioria da população do país considera a península parte de seu território, e é justamente para situações assim que existe o arsenal nuclear russo. Se quisesse retomar essas áreas, Kiev enfrentaria pressão externa. Ameaça: ‘EUA jogam lenha na fogueira’ e podem ‘ampliar conflito’, diz Rússia sobre entrega de foguetes à Ucrânia enquanto que, mesmo demorando alguns meses, a Alemanha deverá fornecer o seu mais moderno equipamento nuclear para ajuda à Ucrânia.

Richard Haas, presidente do centro de estudos Conselho de Relações Exteriores, concebe mais um cenário: a continuação indefinida do conflito, sem uma vantagem clara. Esse cenário seria como um prolongamento da situação entre 2014 e fevereiro, mas em maior escala. Zelensky não conseguiria expulsar as forças russas, mas a Rússia tampouco obteria conquistas suficientes a ponto de declarar vitória. Para o especialista, isso já pode estar acontecendo: ¨Temos uma espécie de impasse, em que a Ucrânia, embora continue a receber enormes quantidades de inteligência, treinamento, armas, munições e dólares dos EUA e do Ocidente, não pode expulsar a Rússia do seu território¨ – E eu não vejo a Rússia sendo capaz de alcançar sua meta de extinguir a independência ucraniana, afirmou ele ao “New York Times”. Em três, seis ou nove meses, a situação provavelmente será dolorosamente parecida com a atual.