PERNINHA EM NOVA VERSÃO

A fome no Brasil pós-pandemia

Por Danizete Siqueira de Lima

Quem teve a oportunidade de conhecer a obra do geógrafo brasileiro Josué de Castro, publicada em 1946 com o título de Geografia da Fome nunca imaginou que, 76 anos depois, o Brasil estaria mostrando números estratosféricos de pessoas que vivem em extremo estado de pobreza quando não tem sequer uma refeição diária em suas mesas. O mais grave é que esses números – que já eram altíssimos – quase dobraram nesses dois anos de Pandemia.

Cerca de 33,1 milhões de brasileiros vivem em situação de fome, 14 milhões a mais que em 2020. Um quadro perverso mostra que a fome nos dias atuais é equivalente a da década de 1990, o que aponta para três décadas de retrocesso conforme destacou a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (PENSSAN) ao divulgar o resultado do seu segundo inquérito. O levantamento anterior havia apontado que o cenário da fome remontava ao que era observado em 2004.

“A continuidade do desmonte de políticas públicas, a piora no cenário econômico, o acirramento das desigualdades sociais e o segundo ano da pandemia da Covid-19 tornaram o quadro desta segunda pesquisa ainda mais perverso”, enfatizou a entidade. Ainda, de acordo com a entidade, a pesquisa foi realizada entre novembro de 2021 e abril de 2022, a partir de entrevistas feitas em 12.745 domicílios, distribuídos em áreas urbanas e rurais de 577 municípios das 27 unidades da federação – 26 estados mais o Distrito Federal.

A metodologia da pesquisa considerou a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), a mesma utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para mapear a fome no país. A Ebia classifica a segurança alimentar como sendo o acesso pleno e regular aos alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. Já a insegurança alimentar é classificada em três níveis – leve, moderada e grave – da seguinte maneira:

  • Insegurança alimentar leve: há preocupação ou incerteza quanto ao acesso a alimentos no futuro, além de queda na qualidade adequada dos alimentos resultante de estratégias que visam não comprometer a quantidade de alimentação consumida;
  • Insegurança alimentar moderada: há redução quantitativa no consumo de alimentos entre os adultos e/ou ruptura nos padrões de alimentação;
  • Insegurança alimentar grave: há redução quantitativa de alimentos também entre as crianças, ou seja, ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos entre todos os moradores do domicílio. Nessa situação, a fome passa a ser uma experiência vivida no lar.

Insegurança alimentar

A pesquisa mostrou que 125,2 milhões de brasileiros vivem com algum grau de insegurança alimentar, número que corresponde a mais da metade (58,7%) da população do país.

Na comparação com 2020, a insegurança alimentar aumentou em 7,2%. Já em relação a 2018, o avanço chega a 60%.

De acordo com o coordenador da Rede PENSSAN, a perda da segurança alimentar no Brasil está diretamente relacionada à atuação governamental. “As medidas tomadas pelo governo para contenção da fome hoje são isoladas e insuficientes, diante de um cenário de alta da inflação, sobretudo dos alimentos, do desemprego e da queda de renda da população, com maior intensidade nos segmentos mais vulnerabilizados”, apontou. Maluf enfatizou que as políticas públicas de combate à extrema pobreza desenvolvidas entre 2004 e 2013 restringiram a fome a apenas 4,2% dos domicílios brasileiros.

Retrato da fome no Brasil

De acordo com a pesquisa, na média, cerca de 15% das famílias brasileiras enfrentam a fome atualmente. Fatores regionais e sociais, no entanto, agravam a situação.

As estatísticas apontam que a fome:

  • é mais presente entre as famílias que vivem no Norte (25,7%) e no Nordeste (21%);
  • é maior nas áreas rurais, onde atinge 18,6% dos domicílios;
  • é realidade na casa de 21,8% de agricultores e pequenos produtores;
  • saltou de 10,4% em 2020 para 18,1% em 2022 entre os lares comandados por pretos e pardos;
  • atinge 19,3% dos lares sustentados por mulheres e 11,9% dos chefiados por homens;
  • em relação a 2020, mais que dobrou entre os domicílios com crianças menores de 10 anos de idade;
  • é maior nos domicílios em que a pessoa responsável está desempregada (36,1%);
  • saltou de 14,9% para 22,3% nos domicílios sustentados por pessoa com baixa escolaridade.

O quadro é mais grave do que se imagina e o pior: pelo menos no curto e médio prazo, com a política econômica e fiscal que está aí, pouca coisa ou nada deverá mudar. Mas, como estamos em um ano de eleição e a máquina só funciona voltada para angariar votos, teremos que aguardar o resultado das urnas para fazermos uma melhor avaliação a partir de 2023 com um novo governo ou, quem sabe, com a mesmice desses 4 anos que estão concluindo, caso o Bolsonaro ocupe a cadeira novamente.