Planalto aposta na aprovação da PEC da Segurança, mas redução da maioridade penal sobe no telhado

No debate da TV Globo, dois dias antes do segundo turno, Lula repetiu que era a favor da redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, pauta historicamente criticada pelo PT.

Estadão

O Palácio do Planalto joga todas as fichas para aprovar no Senado, nesta terça-feira (03), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que aumenta as atribuições do governo federal no combate ao crime organizado. Mas a defesa feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva da redução da maioridade penal subiu no telhado depois da eleição.

O esforço dos articuladores políticos do Planalto será para validar a PEC sem qualquer menção à diminuição da idade de responsabilização penal. Aliados de Lula afirmaram que essa proposta não deverá ser votada neste ano.

A PEC é uma das prioridades de Lula para o quarto mandato, tanto que ele condiciona a criação do Ministério da Segurança Pública à sua aprovação. A avaliação do governo é que, se a PEC não passar agora, dificilmente irá adiante em 2027, quando o Congresso terá uma composição mais conservadora e a oposição promete ser ainda mais dura.

No diagnóstico do Planalto, a bancada do PL, partido do senador Flávio Bolsonaro, candidato derrotado na eleição presidencial, não quer dar sinal verde à PEC da forma como o texto foi enviado pelo governo para não fortalecer Lula. O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da Oposição, apresentou uma emenda que propõe a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, como regra geral, e para 14 anos nos casos de crimes hediondos.

Dez dias antes do segundo turno, Lula disse, em entrevista à TV Globo, que também era a favor de reduzir a maioridade penal, de 18 para 16 anos, mas apenas para crimes hediondos, como homicídio, estupro e feminicídio. A guinada de posição surpreendeu, uma vez que o PT sempre foi contra essa proposta.

A estratégia foi planejada para sair do que o governo via como “armadilha” criada por Flávio, que durante a campanha pressionava o presidente com esse assunto ao dizer que o PT era defensor de bandidos. Ao aceitar a redução da maioridade penal, Lula deixou a oposição sem discurso.

Coube ao senador Camilo Santana, líder do PT no Senado, apresentar uma emenda à PEC da Segurança propondo a redução da maioridade penal para 16 anos em caso de crimes hediondos.

Embora tenha sido combinado com Lula, o movimento provocou desconforto no partido, já que essa posição sempre foi criticada pela esquerda. Em seu primeiro mandato, por exemplo, o presidente dizia que o Estado não podia agir de acordo com um sentimento popular de vingança.

O racha entre aliados e adversários do governo acabou fazendo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), adiar a votação para depois do segundo turno.

Agora, o argumento oficial, também usado por Alcolumbre, é o de tentar aprovar a PEC da Segurança, nesta terça-feira, com os pontos de consenso, deixando de fora trechos polêmicos. Com isso, a redução da maioridade penal seria tratada em outro momento, mesmo acordo costurado na Câmara dos Deputados pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).