
Por Fabiano Lana/Estadão
O governo Lula, mais uma vez, tenta se desvencilhar das amarras do escândalo do Banco Master. A tentativa mais recente ocorreu quando o próprio presidente, em entrevista a um portal amigo, divulgada na última quarta-feira (08), pediu para que o ministro Alexandre de Moraes não deixasse que o banqueiro Daniel Vorcaro “jogasse fora” sua biografia, como se, nessa altura dos acontecimentos revelados, isso fosse possível.
Pelo que consta, pesquisas internas indicam que a crise que afunda o Supremo Tribunal Federal atravessou a Praça dos Três Poderes e atinge a combalida popularidade de Lula, hoje com a reeleição ameaçada. Foi preciso, de alguma maneira, largar a mão de Alexandre de Moraes, até poucos meses o maior herói do Brasil (após Lula, claro), segundo os admiradores do governo, por conseguir condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Agora, Moraes se autocondena e afunda o governo por sua esposa ter recebido R$ 80 milhões do Banco Master para prestar atividades muito longe de corresponderem, pelos valores de mercado, à fortuna amealhada. O que Vorcaro, afinal, queria em troca de tanto dinheiro?
Uma estratégia do governo é colar o escândalo na “direita”. Lembra, com razão, que a maioria dos acusados é de polo ideológico adversário ao petista. A lista revelada nesta quarta mostra que, de fato, nomes como o ex-presidente Michel Temer (MDB), o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto e até mesmo o ex-secretário de Bolsonaro Fabio Wajngarten receberam recursos do Master, entre muitos outros. Ligados ao governo, aparecem menos personagens, como o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. Os estrategistas oficiais lembram também que o Banco Master cresceu e floresceu na gestão Bolsonaro, com o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto.
Mas, para a opinião pública, não se trata de uma questão tão simples de somas de nomes e sequência de fatos, mas de símbolos e impressões. Bastou Alexandre de Moraes, o grande algoz do bolsonarismo, estar enredado na trama para os demais nomes – que são muitos – perderem a relevância relativa no caso. Muito mais do que um animal racional, o ser humano é um animal simbólico.
Não ajudou, é claro, a violenta reação inicial da militância quando as relações de Vorcaro com Alexandre começaram a ser reveladas. Negaram os fatos, atacaram jornalistas, foram absolutamente ofensivos. Na verdade, muitos seguem até hoje na cega insensatez do autoengano. O que conseguiram na prática? Um abraço de afogado com Alexandre de Moraes e o Palácio do Planalto.
O resultado é que, até hoje, o principal acontecimento que marcará o terceiro governo Lula 3 será o do fim do Banco Master e da lama ao redor. Uma constatação decepcionante para um governo algo obcecado em desenvolver programas e pacotes pensando, em primeiro lugar, na popularidade a ser obtida e só depois no ganho para a população.



