Revelações do caso Daniel Vorcaro dividem o STF e pressionam a Corte em meio às eleições

“Nenhuma autoridade está acima da Constituição. Nenhum poder está acima da lei. E nenhum interesse circunstancial pode se sobrepor à integridade do Estado de Direito.” - Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal

Há duas semanas, um relatório da Polícia Federal deflagrou uma crise sem precedentes que atinge em cheio alguns dos princípios mais caros ao sistema judicial. O documento relatava uma descoberta. Em meio às investigações sobre as fraudes do Banco Master, foram encontradas mensagens que revelaram a existência de relações aparentemente impróprias entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mentor e protagonista de um dos maiores escândalos financeiros da história do país. Soube-se, por exemplo, de detalhes inéditos da contratação pelo banco do escritório de advocacia da mulher do ministro por 129 milhões de reais, valor absolutamente fora de qualquer padrão. “É o contrato mais importante que temos”, escreveu o banqueiro. Soube-se também que, na véspera de ser preso, Vorcaro manteve um estranho diálogo com o ministro. Informado não se sabe como nem por quem de que a polícia estava na iminência de prendê-lo, o banqueiro perguntou a Moraes se deveria deixar o país, pediu ajuda para bloquear “as maldades” contra ele e ainda deixou transparecer que ambos contavam com a camaradagem do procurador-geral da República e do diretor da Polícia Federal. Não se sabe o que o magistrado respondeu, pois as mensagens dele nos diálogos foram enviadas com o recurso de visualização única.

Ao tomar conhecimento do teor das mensagens, o ministro André Mendonça, responsável pelo inquérito que investiga o Master, requisitou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, que convocasse o plenário para discutir uma eventual autorização para investigar o colega, um procedimento correto diante da gravidade do que havia sido descoberto. Inconformado com a iniciativa, Moraes reagiu. Acusou Mendonça de usurpar atribuições da polícia, de atuar com parcialidade e de abusar de sua autoridade. O ministro também pediu ao presidente do tribunal para investigar Mendonça e usou o notório inquérito das fake news, uma aberração jurídica que tramita no Supremo há mais de sete anos, para abrigar relatórios de inteligência que levantavam dúvidas sobre a imparcialidade de Mendonça e sugeriam, entre outras barbaridades, que existiria um conluio religioso entre ele e o advogado-geral da União, o petista Jorge Messias. Os relatórios, repassados ao ministro pelo delegado Andrei Rodrigues, diretor da PF, eram apócrifos, algumas das inferências eram classificadas como de “baixa confiança” e, a certa altura, os autores sugeriam que a comprovação dos fatos autorizava “monitoramento e coleta dirigida”.

O tensionamento ganharia capítulos ainda mais chocantes na sequên­cia. Na terça-feira 8, André Mendonça afastou do cargo o delegado Andrei Rodrigues. O ministro desconfiava havia tempo que informações sigilosas sobre as investigações que conduzia estavam sendo propositalmente vazadas e que havia uma ação de sabotagem para embaralhar o trabalho de apuração e proteger algumas pessoas. O diretor da Polícia Federal era o principal suspeito do ministro. Os relatórios de inteligência que pousaram no gabinete de Alexandre de Moraes reforçaram essa convicção. Andrei é próximo de Moraes e, como ele, teria interesse em impedir o avanço da apuração sobre as conexões de Vorcaro. O motivo seria a autoproteção. O delegado é citado nas mensagens que o banqueiro enviou ao ministro na véspera de sua prisão e na liquidação do Master. “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, escreveu Vorcaro, que tenta fechar um acordo de delação premiada e promete revelar segredos da relação que manteve com uma série de autoridades, incluindo o chefão da PF. Andrei e Alexandre de Moraes fizeram parte do restrito grupo de convidados da famosa degustação de uísque bancada pelo Master num clube privado de Londres em 2024. No despacho que afastou o delegado, Mendonça afirmou que foi espionado de maneira ilegal pela Polícia Federal.

A partir desse momento, o racha começou a ganhar contornos de desastre institucional. Logo após a decisão do ministro, a Segunda Turma do Supremo se reuniu para validar ou não o afastamento de Andrei Rodrigues. Primeiro a se manifestar, o decano Gilmar Mendes pediu vista, justificando que precisava de mais tempo para analisar o caso, mas já adiantando a convicção de que o partido Novo, autor do pedido de afastamento, não teria legitimidade para questionar a permanência do delegado na direção-­geral da PF, o que, segundo ele, além de inconstitucional, influenciaria a disputa eleitoral. Os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques, porém, anteciparam seus votos e formaram maioria em favor da manutenção da medida. Dias Toffoli, o quarto membro do colegiado, se declarou impedido de atuar em processos relacionados ao Master desde que foi revelado que um resort da família dele foi comprado por uma empresa ligada a Vorcaro. O afastamento do delegado, no entanto, durou menos de 24 horas. Numa intervenção nada convencional, no dia seguinte o ministro Flávio Dino anulou monocraticamente a decisão do colegiado.

Ex-ministro da Justiça de Lula e superior hierárquico do diretor da PF até ser empossado no STF, Dino utilizou as investigações sobre o suposto financiamento ilegal de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, inquérito que ele conduz, para reconduzir o aliado ao posto com o mesmo argumento invocado por Gilmar Mendes. Dino também questionou a legitimidade do partido Novo e afirmou que as decisões de Mendonça atendiam objetivos pessoais. “Compreende-se que o digno ministro André Mendonça tenha suas divergências funcionais ou pessoais com a Polícia Federal e possa defender os seus direitos perante a instância própria. Mas tais direitos não podem converter-se em fundamento para a prolação de decisão em causa própria.” O curioso é que, há algumas semanas, o mesmo Flávio Dino foi alvo de insinuações semelhantes ao se beneficiar de uma busca para tentar identificar a fonte de um jornalista do Maranhão que produziu uma reportagem mostrando que ele e sua família estavam usando irregularmente veículos blindados do Tribunal de Justiça quando visitavam o estado.

O conflito entre as decisões de Mendonça e Dino relativas ao chefe da PF instauraram uma anarquia institucional, até a intervenção de Edson Fachin. No fim da tarde de quarta-feira, o presidente do Supremo suspendeu as decisões de Dino e de Mendonça sobre o afastamento de Andrei. Fachin também decidiu retirar das mãos de Alexandre de Moraes o inquérito das fake news e, o mais importante, determinou que a abertura da investigação solicitada por Mendonça sobre as relações de Daniel Vorcaro e Alexandre Moraes será submetida ao plenário da Corte na próxima terça-feira (15). “Quando notícias e fatos aventados lançam dúvida sobre a higidez de seu funcionamento, é dever e de interesse de todos e de cada um dos membros deste Tribunal esclarecer o que se passou e, no limite, imputar responsabilidades”, escreveu.

Será uma sessão histórica, para o bem ou para o mal. O Supremo já enfrentou situações delicadas no passado. Foi alvo de espionagem oficial no segundo governo Lula, resistiu a pressões extremas quando condenou a quadrilha do mensalão, não ouviu a opinião pública ao anular a Operação Lava-Jato e, mais recentemente, foi implacável com personagens que ousaram tramar contra a democracia. Em todos esses casos, houve acalorados bate-bocas e rusgas entre os ministros, mas nada parecido com o esgarçamento que se viu agora.

A acertada decisão de Fachin de levar o caso Moraes ao plenário é um passo importante no desejado caminho de passar a limpo a história. Nas mais de cinquenta mensagens recuperadas pelos investigadores nos aparelhos de Daniel Vorcaro, há diálogos com evidências que sugerem que Alexandre de Moraes era ao mesmo tempo o amigo de festas patrocinadas pelo banqueiro, o consultor jurídico e a autoridade a quem Vorcaro recorreu para ajudá-­lo a escapar da prisão, se não bastasse, era também o interlocutor que revisou pessoalmente os termos do contrato assinado entre o Master e o escritório de advocacia da esposa. Como o aparelho telefônico do ministro não foi apreendido, só uma investigação é capaz de revelar o que ele respondeu ao banqueiro e inocentá-lo se for o caso.

Pelo que se viu nos últimos dias, dos dez ministros que devem participar da sessão plenária, três, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, hoje se alinham automaticamente a Moraes. Dois, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques, estão mais próximos do que defende André Mendonça. Cármen Lúcia e Edson Fachin, porta-vozes da adoção de um código de ética na Corte, não manifestaram apoio a nenhum dos lados, enquanto o ministro Dias Toffoli, que se declarou impedido de atuar em processos relacionados ao Master, não deve participar da votação.

A decisão de Fachin, a princípio, implodiu os planos de empurrar as investigações para depois das eleições. Uma ala da Corte, em sintonia com o que também desejava o Palácio do Planalto, defendia que decisões que provocassem algum tipo de turbulência deveriam ser deixadas para depois do segundo turno. É fato que, qualquer que seja o veredicto do plenário na terça-­feira, haverá desdobramentos. Nos últimos dias, a campanha de Flávio Bolsonaro impulsionou peças que reforçam a proximidade de Lula com Alexandre de Moraes. A repercussão negativa na candidatura petista foi imediata. Não por acaso, o candidato à reeleição apareceu pela primeira vez depois do início da campanha numericamente atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas simulações de segundo turno. Para conter o desgaste, Lula tenta agora se distanciar de Moraes. Os ministros do STF precisam se manter alheios a esse tipo de preocupação. Sem independência, sentenças ficam sujeitas a interferências políticas. Sem imparcialidade, interesses pessoais costumam se sobrepor às leis. Quando a ética desaparece, o sistema desaba. Por isso, caberá novamente aos ministros zelar pelo estado democrático de direito, com serenidade e firmeza.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012