UM TOQUE DE SAUDADE

Por Naldinho Rodrigues*

Na primeira sexta-feira do ano, dia 05 de janeiro, completaram-se 10 anos da morte do cantor e compositor brasileiro Nelson Ned D’ávila Pinto. A vida de Nelson Ned daria um filme, tanto documentário quanto de longa ficção com a história desse astro mineiro que triunfou nos Estados Unidos e em vários países da América Latina, sobretudo na Argentina, Colômbia e no México, enquanto era menosprezados pelas elites culturais do Brasil.

Após adquirir fortunas mundo afora, Nelson Ned morreu, de nanismo, pobre e esquecido, aos 66 anos, contando somente com o carinho das irmãs e dos filhos. Nelson Ned nunca passou de 1,12 metro, mas se agigantou pela voz potente que tocava fundo os corações de ditadores sanguinários, de gente humilde e de personalidades notórias, conhecedoras da música brasileira, que faziam questão de desconhecer o alcance da voz de Nelson Ned entre 1970 e 1985, fase áurea da carreira internacional do artista nascido em Ubá (MG), em família de boa condição financeira.

Em abril de 1971, Nelson Ned foi recebido no aeroporto de Luanda, em Angola, por milhares de fãs (cerca de 3 mil pessoas. No dia 16 de junho de 1974, Nelson Ned fez dois shows em único dia, no palco mais cobiçado de Nova York (EUA), o Carnegie Hall, ambos com lotação esgotada. Lotou os estádios do México por diversas vezes, e cantou para 80 mil pessoas em Bogotá, capital da Colômbia.

Nos anos 1970 e 1980, Nelson Ned conheceu o sucesso em proporção mundial alcançada por nenhum outro cantor do Brasil. Mas o astro conheceu também o avesso da fama a partir de 1975. Atormentado por dores na coluna e no quadril, Nelson Ned embarcou nas drogas lícitas receitadas pelos médicos – analgésicos como a morfina e anti-inflamatórios tão ou mais potente do que a voz do cantor, e também nas substâncias ilícitas que buscava na noite. Bem relacionado, Nelson Ned costumava cheirar a cocaína pura vinda dos magnatas do tráfico. Também bebia álcool em quantidades industriais, o que o tornava pessoa de temperamento explosivo e buscava sexo alucinadamente fora do casamento.

Nelson Ned tinha autoestima, mas se achava feio e sofria pela consciência de que conquistava mulheres mais pelo poder da fama e do dinheiro. Decadente a partir da década de 1990, em parte por ter priorizado os discos religiosos após a conversão definitiva do cantor, Nelson Ned foi sumindo da mídia na mesma medida em que um dia parecia ignorar a existência do astro. Tudo passou, referendando o título do bolero de 1969 que deu o nome ao álbum “Tudo Passará”, título que marcou o início da escalada do cantor. Só que Nelson Ned faz parte da história da música brasileira.

Nelson Ned cantou a rejeição como ninguém e chegou a superar Roberto Carlos no exterior chegando a ser considerado em determinada época “o brasileiro mais famoso do mundo”. Nelson cantou para os excluídos e falava com os solitários.

Nelson Ned deixou uma frase eternizada, dizendo: “Não creio em criação sem sofrimento, não creio em arte sem sofrimento. A arte é produto do sofrimento, ela é filha do sofrimento. A música sempre foi a consequência de uma causa, que foi a dor”.

O pequeno gigante brasileiro, no seu primeiro sucesso usou da inteligência para colocar o título da música: “TUDO PASSARÁ”...

*Naldinho Rodrigues é locutor de rádio. Apresenta o programa Tocando o Passado, pela Rádio Afogados FM, sempre aos domingos, das 5 às 8 da manhã.