UM TOQUE DE SAUDADE

Por Naldinho Rodrigues*

Para fechar a nossa série de homenagens, nessa época junina, chegou a vez de recordar um pouco de José Januário Gonzaga do Nascimento ou simplesmente Zé Gonzaga, um obstinado. Zé Gonzaga saiu de Exu, no Sertão do Araripe pernambucano, a pé. Levou vinte dias para chegar em Petrolina, onde pegou um pau de arara com destino ao Rio de Janeiro.

Não se deu bem no Rio, então decidiu ir para São Paulo, igualmente a pé, levou 28 dias para chegar à capital paulista. Lá tampouco encontrou emprego e viajou pelo interior do estado trabalhando como agricultor, ofício que conhecia muito bem. A mãe, o pai e irmãos não conheciam outro meio de ganhar a vida.

Em 1941, estava de volta ao Rio de Janeiro porque soube que um irmão dele morava na cidade. A mãe enviara-lhe o endereço da pensão onde Lula, o irmão, hospedava-se e lá foi bem recebido. Lula perguntou se José Viera podia ficar. Ele respondeu que sim. Perguntou se tinha documentos. Ele respondeu que não. Disse que isto seria providências, mas alertou a José para que não saísse da pensão. A polícia prendia quem fosse pego sem documentos.

Lula (Luiz Gonzaga) era músico da noite, tocava nos bares do mangue, o baixo meretrício (cabaré) da então capital do país. Além do dinheiro, ganhava muitos maços de cigarros, que dava ao irmão para vender. Era a fonte de renda de José. Oito meses mais tarde, com documentos na mão, José entrou para o exército. O mundo estava em guerra. Por pouco ele não foi para a Itália, como pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

O irmão tocava sanfona, José também tocava. Ambos aprenderam com o pai, exímio tocador de pé de bode, o fole de oito baixos. Quando José deu baixa no exército, Luiz já era relativamente bem-sucedido, tocava no rádio. Ganhava o suficiente para comprar uma sanfona de 120 baixos, a fim de que o irmão tirasse dela o sustento.

Zé Gonzaga era brincalhão, falador e tinha talento. dirigiu-se a uma casa noturna conhecida, a Novo México, na Lapa, e ofereceu-se para trabalhar lá. Foi aceito. Logo estaria tocando em vários cabarés. Em 1949, Zé Gonzaga foi convidado a tomar parte de uma excursão que levaria a Buenos Aires. Foi a primeira viagem internacional de Zé Gonzaga.

Dois anos mais tarde, ele estaria na caravana babilônica que Francisco de Assis Chateaubriand levaria a Paris. Ao voltar da viagem, foi contratado pela Tv Tupi, e passou a ser conhecido como “Zé Gonzaga”. Lula, o irmão, já com fama nacional como Luiz Gonzaga (seu nome de batismo) não gostou do nome artístico de José. Teve belíssima repercussão nos meios musicais e radiofônicos, a deselegante atitude de Luiz Gonzaga de proibir seu mano, o Zé Gonzaga, de usar o seu sobrenome”.

Zé Gonzaga era o oposto do irmão. Alto, magro, o riso sempre aberto. Era da galhofa, de beber sem moderação, e de contar vantagem. Porém, Luiz Gonzaga tinha seus motivos para se irritar com o irmão, principalmente pelas fofocas que o Zé Gonzaga criava…muito fofoqueiro. Além de sanfoneiro, Zé Gonzaga foi um compositor competente.

Sua carreira declinou nos anos 60, quando o iê-iê-iê dominou o mercado e escanteou o forró das grandes cidades. O último disco dele foi em 1963, deu uma parada e só voltou a gravar em 1971, mas sem grande sucesso.

José Januário Gonzaga do Nascimento nasceu em Exu no dia 15 de janeiro de 1921 e faleceu no Rio de Janeiro no dia 12 de abril de 2002. Vamos curtir um de seus maiores sucessos: MARGARIDA...

*Naldinho Rodrigues é locutor de rádio. Apresenta o programa Tocando o Passado, pela Rádio Afogados FM, sempre aos domingos, das 5 às 8 da manhã.