Vaga do Senado: Raquel Lyra ganha mais adiando do que decidindo com pressa

Por Igor Maciel/JC

Ao contrário do que alguns defendem, Raquel Lyra (PSD) tem razões suficientes para deixar que Miguel Coelho (União) e Eduardo da Fonte (PP) disputem entre si a segunda vaga ao Senado na chapa governista, sem se envolver por enquanto.

A governadora já sinalizou que o espaço será da Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas. A decisão resolve uma parte do problema e mantém em aberto a parte mais sensível dele. Escolher agora entre Miguel e Dudu significaria comprar uma briga desnecessária dentro do próprio campo aliado. E ainda há outras questões.

A disputa não é pequena. Miguel Coelho chega ao debate com liderança regional consolidada, especialmente no Sertão, capital político acumulado em Petrolina e presença eleitoral própria. É um nome com densidade territorial clara, identidade administrativa e capacidade de falar com uma parte do eleitorado que enxerga no interior um centro estratégico da eleição.

Eduardo da Fonte oferece outro tipo de ativo. Dudu, como é conhecido, tem uma rede ampla de prefeitos, vereadores, lideranças municipais e operadores políticos espalhados pelo estado. Sua força não está apenas na lembrança do eleitor, mas na capacidade de mobilizar estrutura. Esse tipo de capilaridade pesa, especialmente quando a disputa majoritária tende a ser decidida por margens apertadas.

A última pesquisa Datafolha colocou Eduardo da Fonte numericamente à frente de Miguel Coelho na disputa pelo Senado. No cenário com Fernando Dueire, Dudu apareceu com 22%, enquanto Miguel marcou 19%. No cenário com Túlio Gadêlha, Dudu ficou com 21% e Miguel caiu para 16%. A diferença favorece o deputado do PP, mas não encerra o debate.

Pesquisa mede intenção de voto em determinado momento e chapa majoritária exige composição, território, partido, estrutura, tempo de televisão, financiamento, capacidade de agregação e ausência de passivos graves.

O Palácio sabe que uma escolha feita cedo demais pode resolver um problema menor e criar outro maior.

Raquel também precisa equilibrar a chapa por outro lado. Túlio Gadêlha (PSD) cumpre a função de dar uma sinalização à esquerda, reduzindo o risco de uma composição excessivamente identificada com o campo conservador, para não cometer à direita o mesmo erro que João Campos (PSB) cometeu à esquerda quando formou sua chapa. Com Túlio ocupando esse espaço, resta só uma vaga para a Federação União Progressista.

A governadora não precisa arbitrar essa queda de braço neste momento. Pelo contrário. Quanto mais tempo a disputa seguir dentro da federação, mais tempo Miguel e Dudu permanecem trabalhando para se viabilizar no campo de Raquel. Antecipar a escolha poderia empurrar o derrotado para a insatisfação, reduzir o engajamento de um grupo importante ou abrir espaço para ruídos internos.

Há ainda um fator que torna a prudência mais racional. Nos bastidores, existe preocupação com os desdobramentos de investigações da Polícia Federal e com eventuais delações envolvendo Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa. O receio é que fatos novos atinjam lideranças ou estruturas ligadas ao União Brasil, ao Progressistas ou a aliados próximos desses dois partidos.

Se há possibilidade de operação, delação ou novo fato público envolvendo personagens de uma federação que terá uma vaga na chapa, o Palácio dificilmente vai se apressar para cravar um nome antes de saber o tamanho real do problema. Até agosto, quando acontecem as convenções, muita coisa pode mudar.

A posição mais conveniente para Raquel, neste momento, é deixar a Federação União Progressista administrar sua própria disputa. Miguel tem argumentos. Dudu também. Raquel pode ficar “alheia” porque não ganha quase nada que já não tenha ao se envolver. A vaga está prometida ao bloco. Enquanto Miguel Coelho e Eduardo da Fonte disputam espaço, a governadora preserva os dois, evita desgaste interno e mantém a Federação União Progressista comprometida com sua reeleição. Indefinição, muitas vezes, também é uma forma de comando.