18 – SEXTOU POÉTICO – Sertanejo – Dudu Morais

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el – Neste dia dedicado ao trabalhador vamos falar sobre um poema de Dudu Morais dedicado ao homem do Sertão.

Papa – A contundência e a intensidade dos poemas de Duda Morais assinalavam uma mensagem que não conseguimos captar com a clareza necessária. O menino poeta de Tabira nos deixou muito cedo, sua obra atravessará décadas. Escolhemos o poema “SERTANEJO” por expressar o amor do jovem poeta e advogado por sua terra. Faz parte do  livro “Nas Rédeas da Poesia’, de 2010, ano que o autor tinha apenas vinte anos.

 

Do meu belo Sertão não me separo

Quando ouço a cantiga do pardal,

Dois bois mansos deitados no curral

Esperando que o dia fique claro.

Da janela do quarto me deparo

Co’as galinhas descendo do poleiro,

Dois frangotes brigando no terreiro

E andar “avexado” de uma pata;

Mas na frente um cachorro vira lata

Amarrado num “pé de juazeiro”.

 

Meu café, quase sempre tomo puro,

Encostado na porta da cozinha.

Vejo a horta de coentro e batatinha

Que eu sozinho plantei detrás do muro.

Faço um suco de maracujá maduro,

Meio azedo sem ter muita doçura.

Uma carne de charque é a mistura,

Com um doce qualquer por sobre mesa

E encostado na quina de uma mesa

Eu almoço feijão com rapadura.

 

Vez por outra, ao açude me destino

Com um carro de boi e eu no meio.

O tambor foi seco volta cheio

E a boiada co’o peso bate o sino.

Mas na volta pra casa meu menino

Na carreira de jegue me alcança.

Nos fueiros do carro se balança,

Imitando eu falar com a boiada

E essa junta, de tão acostumada,

Obedece aos comandos da criança.

 

Logo após um trabalho tão forçado,

Reconheço o esforço dos meus bois,

Corto palma que dê pra todos dois,

Inda trago capim lá do roçado.

Num aboio, recolho todo gado

Que, ao me ouvir, de onde está logo regressa

Um bezerro mais novo anda com pressa,

Remoendo bagaços da campina

“Escramuça”, dar coice e se empina

Não tem cena mais linda do que essa.