
Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)
Ade Maleu Lapa-el – Espaço aberto nesta sexta-feira para Ferreira Gullar.
Papa – José Ribamar Ferreira (Ferreira Gullar), nasceu em São Luís do Maranhão em 10 de setembro de 1930, mesmo sabendo que os poetas não morrem ele nos deixou há dez anos. Destacado poeta, escritor, crítico de arte, tradutor, ensaísta, etc. Imortal da Academia Brasileira de Letras e festejado como um dos mais importantes intelectuais brasileiros. Da sua expressiva floresta de poesias extraímos o poema “Traduzir-se”, musicado magistralmente por Raimundo Fagner e o metapoema “A Poesia”. Duas pelas produções poéticas.
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Onde está a poesia? indaga-se
por toda parte. E a poesia
vai à esquina comprar jornal.
Cientistas esquartejam Puchkin e Baudelaire.
Exegetas desmontam a máquina da linguagem.
A poesia ri.
Baixa-se uma portaria: é proibido
misturar o poema com Ipanema.
O poeta depõe no inquérito:
meu poema é puro, flor
sem haste, juro!
Não tem passado nem futuro.
Não sabe a fel nem sabe a mel:
é de papel.



