
Por Maria Clara Trajano/JC
Antes conhecida como o grande polo de compras da capital pernambucana, a Rua Imperatriz Teresa Cristina hoje estampa um cenário desolador.
Onde antes mal se conseguia transitar devido à multidão, o que se vê agora é um corredor esvaziado, marcado por imóveis de portas fechadas, andares superiores desocupados e fachadas que evidenciam o abandono da região central.
“Antigamente, o movimento por aqui era imenso; a gente quase não conseguia transitar durante o dia, principalmente em épocas de festa, de tão importante que essa rua era para o centro da cidade”, relembra o aposentado Carlos de Vasconcelos.
O colapso do comércio diurno e a insegurança
A deterioração estética e comercial não aconteceu da noite para o dia. O comerciante Josemir Dias, que atua na via há 47 anos, lembra que o declínio começou quase uma década antes da pandemia.
“Naquela época, a Imperatriz era um espetáculo de gente; era tanta gente que as pessoas tinham até dificuldade de transitar pela rua. Todo mundo queria alugar um ponto, havia disputa e ganância pelos lugares, porque todo mundo ganhava dinheiro aqui. Era uma rua espetacular, mas hoje ela se encontra nessa calamidade de falta de pessoas”, relata.
“Quando eu era jovem, eu via essa rua aqui como uma maravilha, sabe? Era tudo muito movimentado. Mas, infelizmente, hoje ela está entregue às baratas. O que a gente vê agora é o comércio fechando as portas; o comércio de rua está acabando e a Rua Imperatriz está ficando cada vez mais vazia, sem lojas. Infelizmente, não existe mais aquele movimento de antes aqui nesta rua; é essa a realidade que eu vejo hoje”, explica Norma Silva, frequentadora da região.
A sensação de insegurança, o avanço do comércio ambulante e a falta de policiamento sistemático afastaram a clientela que antes lotava a via.
“É uma junção de vários problemas que afetam o comércio, começando pela falta de clientes, que deixam de vir para o centro por causa da falta de segurança e de policiamento, que é algo raro de se ver por aqui. Além disso, as paradas de ônibus ficam muito distantes e o próprio comércio nos bairros acaba segurando o pessoal por lá”, observa o segurança patrimonial Paulo Alexandre.
“Agora, quando começa a escurecer, o povo se recolhe”, lamenta Jackson Porfírio, atendente da Padaria Imperatriz, que funciona há 129 anos no endereço.
Resistência centenária
Apesar do cenário hostil, há quem resista. A tradicional padaria da rua, que já acumula mais de um século de história no coração do Recife, é um símbolo dessa teimosia comercial.
Jackson lembra de um passado recente em que o estabelecimento ficava intransitável. “A padaria vivia tão cheia que não tinha nem lugar para sentar; as pessoas ficavam em pé, com a nota fiscal na mão, esperando por uma oportunidade para lanchar porque a comida era muito boa”, conta.
Hoje, o movimento é classificado por ele como precário, impulsionado quase exclusivamente por eventos esporádicos no centro.
Novas perspectivas com a vida noturna
Enquanto o comércio diurno tradicional de roupas e utilidades domésticas míngua, a vida noturna surge como uma aposta isolada. O empreendedor Bruno Barros decidiu abrir o Conchittas Bar no local, enxergando uma infraestrutura propícia: rua calçada, pontos comerciais disponíveis e ausência de residências nas proximidades para não gerar conflitos com o barulho.
“Para o futuro, enxergo a Imperatriz como a grande ‘rua dos bares’ de Pernambuco. Imagino bares tocando jazz, frevo e, claro, o brega, já que somos a capital do gênero, além de samba e forró”, projeta Bruno.
A iniciativa, no entanto, divide opiniões entre os veteranos da via. Para o comerciante Elias Beltrão, a operação noturna não traz alívio para o lojista do dia a dia.
“Não notamos um impacto real na movimentação do comércio ou na atração de pessoas para a rua durante o dia; esse não é o tipo de atrativo que a Imperatriz precisa, pois para o comércio normal não mudou nada”, argumenta.





