
Por Igor Maciel/JC
A eleição de Pernambuco tende a ser polarizada sob a visão do eleitor. Então eleitoralmente ela é polarizada. Politicamente não. As pessoas tendem a misturar as duas coisas porque elas se relacionam e se alimentam, mas eleição e política são dois veículos diferentes percorrendo um mesmo caminho, obrigatoriamente tendo que chegar ao mesmo destino, embora continuem sendo veículos diferentes.
Na política pernambucana existem muito mais nuances do que a discussão entre João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSB). E se o ex-prefeito ou a governadora não entenderem isso, podem se prejudicar durante a eleição ou depois dela. Essas nuances incluem a Federação União Progressista e o PL, no que diz respeito ao palanque de Raquel. O PT e Marília Arraes estão na equação de João. Talvez esses fatores estejam sendo tratados com menos atenção do que deveriam. Todos estão sendo menosprezados de alguma forma. E isso é um perigo estratégico.
Nos bastidores, o PL está se movimentando para lançar um candidato ou uma candidata ao governo de Pernambuco. Isso não é fofoca, não é apenas balão de ensaio. Pode até não se confirmar no futuro, mas hoje é algo concreto que já tem até argumentação eleitoral sendo fundamentada, segundo a coluna apurou em Brasília com fontes nacionais do partido. Tem a ver com a necessidade da sigla de dar base a Flávio Bolsonaro, mas também tem a ver com a ideia da equipe de Raquel Lyra, equivocada, de que o voto da direita é dela, naturalmente, e nenhum esforço ou gesto com o partido no estado precisava ser feito.
É equivocado porque essa migração do voto de direita para a governadora tem a ver com a ausência de um candidato bolsonarista, mais do que com a gestão. A forma como o PL foi tratado até hoje pode definir se a eleição terá ou não um segundo turno. E isso não é algo que se ignorasse.
A Federação União Progressista é outra questão que teve menos atenção do que deveria por parte do Palácio. É o maior tempo de TV e Rádio da campanha. É verdade que as circunstâncias criaram a realidade atual com os nomes mais fortes de cada um dos dois partidos disputando uma vaga para o Senado na chapa. Mas isso poderia não estar sendo alimentado agora, como está, se a campanha da governadora quisesse evitar os atritos que surgirão após a decisão interna. Essa decisão virá e pode deixar insatisfeitos.
O PP de Eduardo da Fonte tem maioria interna de cinco para dois votos em Pernambuco, em relação ao União Brasil de Miguel Coelho. Uma reunião foi convocada para depois do São João, no próximo dia 29. O roteiro é previsível: Por 5×2, Da Fonte será escolhido para a disputa do Senado. Raquel poderá dizer que não excluiu ninguém e a decisão foi da federação. Mas todo mundo sabe que não será pacífico. No meio do mal estar da federação, a única concordância dos dois partidos será que “só estão brigando porque o Palácio se absteve”.
Tem algo que precisa ser lembrado sobre o PL e a Federação União Progressista. E isso não tem a ver apenas com eleição e sim com política. Há quem faça cálculos que apontam a possibilidade de, juntos, eles fazerem até 20 deputados estaduais. As previsões menos otimistas apontam 17.
Mesmo vencendo as eleições com a governadora, é uma bancada e tanto para ter que lidar em uma nova gestão, depois de tudo o que esse governo já enfrentou com a Alepe entre 2023 e 2026. Juntos e chateados com o tratamento que tiveram nos últimos meses, PP, União Brasil e PL podem dar trabalho. E aqui nem estamos contando ainda com a oposição.
Em relação à campanha do ex-prefeito João Campos, o que está sendo menosprezado é o ambiente difícil, quase insalubre, da relação entre Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT). Por maior que seja o esforço para fingir que há união entre os nomes, a tensão entre eles é tão pesada que dá pra sentir no ar, nas fotos, nos vídeos.
No caso do PSB também há menosprezo em relação aos aliados e colocá-los pra cima do palanque não resolveu isso, principalmente pela forma como ocorreu. Parte do PT queria discutir melhor, o PT nacional reclama nos bastidores de estar sendo pressionado em Pernambuco e muitas lideranças petistas nem fazem questão de esconder que votarão em Raquel.
Por sua vez, Marília Arraes fica tendo que lidar com informações de bastidor de que os socialistas estariam buscando uma forma de tirar ela da chapa até as convenções. E, no PSB, há uma preocupação de que se ela vencer a disputa pelo Senado para um mandato de oito anos, e João não se eleger governador, a pedetista pode acabar se tornando mais forte que o socialista nas disputas futuras, tanto do Recife quanto de Pernambuco. Esse clima também pode causar problemas. Na eleição ou depois dela.



