
A pisada é uma só: mais do mesmo a cada novo ano
Por Danizete Siqueira de Lima
Quem conhece o Recife, mesmo que não tenha residido por lá, sabe das complicações que surgem a cada novo inverno ou, como diz um amigo nosso: a cada novo inferno. Por ser uma cidade que está abaixo do nível do mar e, como se não bastasse, ainda ser cortada por dois rios, o desastre é eminente: os alagamentos são frequentes e nos mesmos locais já conhecidos.
Some-se a esse caos generalizado, a grande região metropolitana e o crescimento desordenado de cidades como Jaboatão, Camaragibe, Olinda, Paulista, Cabo de Santo Agostinho e adjacências. A defesa civil, quando acionada, faz o que pode mas a vontade política é muito pouca em atacar o problema de frente e a história se repete cada vez mais desastrosa.
A única coisa que não muda é o discurso negacionista e sem qualquer credibilidade: ¨choveu além da média¨. Essas são as palavras mais cômodas proferidas pelos governantes a cada nova enxurrada e tudo continua no marasmo. Nada é feito para minimizar as situações críticas vividas pelos habitantes mais humildes que residem nos morros, favelas e alagados.
E exemplos de descasos é o que não faltam como a enchente do Rio Una, em 2010, época que morávamos em Recife e acompanhamos tudo de perto. Senão vejamos: olhar para o céu e para o Rio Una ainda é motivo de preocupação em Palmares, na Mata Sul de Pernambuco, mesmo após mais de uma década das grandes enchentes que atingiram o município, em junho de 2010. Passados 12 anos, apenas uma das cinco barragens prometidas pelo governo do estado para conter as cheias foi entregue (junho de 2020) 10 anos depois da tragédia.
Até o fechamento dos mapas pela Defesa Civil, com dados catalogados entre os dias 23 e 30 de maio (última segunda feira), consta o registro de 91 mortos, dos quais 13 pertenciam a uma mesma família e um número aproximado de 5.000 pessoas desabrigadas. 14 municípios estão em situação de emergência segundo dados técnicos mas, quem sabe, esses números poderão ser bem maiores.
Daqui a pouco, tomara, as coisas voltam ao normal. As chuvas dão uma trégua, os atingidos choram o sepultamento dos seus entes queridos, quem ficou desabrigado vai tentar reconstruir sua vida e o governo do estado, na pessoa do sr. Paulo Câmara Lenta, juntamente com o prefeito João Campos (boêmio e turista), sentam em suas confortáveis poltronas e vão continuar as costuras políticas, não importa com quem; o que importa mesmo é fazer o sucessor e continuar na vitrine, após as eleições majoritárias que se avizinham.
No momento, o mais importante é fazer o substituto do governador, na mesma legenda que está aí há 4 mandatos, como se fosse uma monarquia da família Campos que, de quebra, deve emplacar um irmão do atual prefeito do Recife como deputado federal, para que possa dar continuidade ao projeto político que a família real implantou em nosso estado, a partir da eleição de Eduardo Campos (in-memoriam).
É mais ou menos como dizia aquela música de Luiz Gonzaga, o rei do baião: ¨de pai pra filho, de pai pra filho, derna de 1912¨.
A questão das enchentes – como sempre – será postergada para dias futuros, assim como foram tantas outras. Afinal, chover além da conta não é culpa dos governantes e, por conseguinte, não há obrigação de resposta pelo poder público a essas calamidades.