
Em 16 de novembro de 2025, véspera de sua primeira prisão preventiva, o então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, enviou a seguinte mensagem ao ministro Alexandre de Moraes: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Para os investigadores da Polícia Federal, Andrei é o diretor-geral da própria corporação e o diálogo interceptado levanta duas suspeitas, ambas gravíssimas. A primeira é de que o protagonista da maior fraude bancária da história pode ter tido conhecimento antecipado da ordem judicial que desencadearia uma operação contra ele e seu banco. A segunda revelaria que a intimidade do ex-banqueiro com o ministro do STF era grande o suficiente para ele se sentir à vontade em pedir, sem rodeios, que o magistrado cometesse um crime. Não se sabe o que Moraes respondeu diante da ousada proposta, já que o ministro apagou todas as mensagens trocadas com o ex-banqueiro. Os diálogos também empurraram o chefe da PF para o escândalo.
Desde a eclosão do caso Master, Andrei vem tendo sua atuação questionada. Em abril de 2024, ele foi um dos comensais na já famosa degustação de uísque promovida e patrocinada por Vorcaro em Londres. As mensagens tornadas públicas indicam que o convite ao delegado para a viagem de quatro dias, apresentada como um “fórum jurídico-político” e custeada integralmente pelo Master, partiu do próprio Moraes.
A aproximação do ministro com o delegado começou no início do governo e se intensificou durante as apurações dos ataques do 8 de Janeiro. Uma ala da PF envolvida na investigação do caso Master suspeita que essa relação, hoje sólida, está na origem de vazamentos seletivos que ocorreram ao longo das apurações e também está diretamente ligada à falta de empenho da corporação em levar adiante alguns acordos de delação premiada. Vorcaro já apresentou duas propostas, mas ambas foram rejeitadas. As autoridades responsáveis pela análise dessas colaborações alegam que elas não acrescentam nada de relevante ao que as investigações já apuraram sobre o escândalo. Há agora uma terceira tentativa em curso, na qual o ex-banqueiro incluiu Rodrigues entre seus alvos.
Em depoimento prestado a um juiz auxiliar do ministro André Mendonça na semana passada, Vorcaro disse ter sido submetido a torturas psicológicas por parte da PF. Elas teriam começado em março deste ano, quando foi preso pela segunda vez. Segundo ele, durante a transferência de São Paulo para Brasília, os agentes o colocaram dentro de uma caixa, “como um bicho”. No trajeto, batiam no compartimento e diziam que ele seria atirado lá do alto: “Ninguém vai duvidar se a gente disser que você se jogou do avião”, relatou aos advogados. Pode-se interpretar essas acusações como fruto do desespero de uma pessoa presa há seis meses. Eventuais exageros à parte, o fato é que o ex-banqueiro promete contar bem mais. No mesmo depoimento, ele acusou o diretor da PF de ter atuado para evitar que suas propostas de delação premiada avançassem. E o objetivo, de acordo com o dono do Master, seria impedir que a relação entre ele e o delegado fosse tornada pública.
Por enquanto, ainda não é possível saber se Moraes instou o comandante da Polícia Federal a interferir na operação que se desenhava contra Vorcaro. No dia seguinte ao pedido, aliás, o banqueiro foi preso preventivamente no Aeroporto Internacional de Guarulhos, e não uma semana depois, como ele próprio sugeriu. Aquele, porém, não foi o único apelo do ex-banqueiro para que o ministro do Supremo acionasse a PF. “Importante reforçar com Andrei e Paulo Gonet, procurador-geral da República, pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem”, escreveu Vorcaro a Moraes em 30 de outubro de 2025, dezoito dias antes de sua primeira prisão, afirmando ter recebido informações confidenciais de diretores do Banco Central de que policiais federais e procuradores do Ministério Público estariam pressionando a autarquia a acompanhá-los em novas medidas contra ele. Os investigadores enxergaram nessa mensagem de Vorcaro indícios de que Andrei estava monitorando pessoalmente o caso.
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